quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Câncer: Uma Abordagem Psicossomática (8)


CÂNCER: UMA ABORDAGEM PSICOSSOMÁTICA (Anexo 8)

SOLUÇÃO (REDENÇÃO) DO PROBLEMA DO CÂNCER

Com base em nossa perplexidade por um lado, e nossa valoração por outro, é difícil ver ainda uma dis(solução) na representação do câncer. Como comunidade, temos muito medo das nossas próprias forças e das energias que estão adormecidas em nós. Amparados por inúmeros álibis sociais, nós a empurramos para a sombra. Embora a sociedade tenha estilizado a livre manifestação do indivíduo e a livre empresa como sendo o objetivo máximo a ser atingido, a maioria de seus membros individuais é atormentada por medos e angústias consideráveis no que a isso se refere. Os índices de crescimento anímico-espiritual continuam sendo muito mais baixos que os índices de crescimento científico. A longo prazo, nosso grandioso produto nacional bruto não pode compensar a falta de crescimento interior. Com o apoio da sociedade, mas por iniciativa própria, muitas pessoas conseguem bloquear a manifestação de seu eu, encaixando-a em estruturas pré-determinadas com facilidades ou, muitas vezes também à força. Gratificações externas aliviam a renúncia ao desenvolvimento da individualidade e promovem a massificação da pessoa. Apenas um pequeno passo separa o indivíduo massificado do “normopata”.

Como a auto-realização é parte do caminho de desenvolvimento do ser humano, ela não pode ser eliminada do mundo, podendo no máximo ser posta de lado. Quando empurrada para o lado, ela aterrissa na sombra. Esta tem duas possibilidades de expressão no mundo material: o mundo corporal interior (microcosmos) e o mundo (meio ambiente) exterior (macrocosmos). Consequentemente, o caminho dos processos de crescimento reprimidos vai da consciência para o mundo de sombras do inconsciente, e dali para o plano corporal ou para o mundo exterior. Como o princípio é conservado a cada passo e precisa adaptar suas possibilidades de expressão ao plano em que se manifesta, ele pode ser encontrado por toda parte, seja em sua manifestação redimida ou em sua forma não-redimida. Quanto mais ele é reprimido, menos redimido ele se apresenta, mas mesma sob  a forma menos redimida deve ser possível vislumbrar ainda o plano redimido.

Nós em geral consideramos o plano material como não-redimido, e o plano anímico-espiritual como redimido. No acontecimento do câncer, nós consideramos maligno aquilo que em sentido figurado nos parece totalmente desejável: o princípio de expansão. O câncer ultrapassa todas as fronteiras e obstáculos, estende-se por tudo, penetra em tudo, participa de tudo, une-se a tudo, até a estruturas alheias, não se detém diante de nada, não pode ser detido por praticamente nada, é quase imortal e não teme nem mesmo a morte. O câncer é a expansão que mergulhou nas sombras (do corpo). Consequentemente, trata-se de expandir a consciência, de descobrir a infinitude e a imortalidade da alma. Não deveríamos nos admirar que o princípio mais elevado apareça por intermédio do mais maligno de todos os sintomas. A sombra mais escura sempre emite a luz mais brilhante. Com a auto-realização, no câncer, o que mergulhou nas sombras é o tema que procura atingir o objetivo final de todo desenvolvimento: o “si mesmo”.

Embora o meio seja o objetivo final, no início do caminho é necessário confiar em si mesmo e ir para os extremos. Quando Cristo diz: “Seja quente ou frio, o morno eu cuspirei”, ele está falando sobre uma etapa do caminho. É o meio como compromisso podre que deve ser abandonado. Aqui está a tarefa mais difícil do aprendizado do paciente de câncer. Nesse sentido, o tranqüilo meio-termo no qual o normopata se acomodou não é de forma alguma um lugar definitivo. Em lugar da harmonia do meio, o que impera é uma harmonia aparente. As (“malignas”) energias do ego não são visíveis, mas sua vida nas sombras é tanto mais intensa. O normopata jamais ferirá alguém com um não egoísta e descompromissado, mas tampouco fará alguém feliz com um sim incondicional. Ele se desculpa permanentemente por sua existência, mas não se livra da culpa primordial (a separação da unidade). Para ele, a aparência é mais importante que o ser. Entretanto, trata-se em última instância do ser, e ele portanto não encontra a paz final no cômodo meio, um caminho ao longo do qual ele encontra pouquíssima resistência, ou seja, a paz que ele pode encontrar aqui não é realmente a paz definitiva.

A primeiríssima coisa que ele deve fazer é começar a se mover, a crescer, a se transformar e a se desenvolver. Faz parte, também, aprender a dizer não, detectar e viver seus desejos egoístas, experimentar rebelar-se contra regras rígidas, escapar de estruturas demasiado estreitas, chegar perto e perto demais dos outros, pular fronteiras, ignorar limitações, viver todas as coisas que, caso contrário, ocorrem nas sombras como acontecimento cancerígeno. Em vez de mutações no nível celular, poderia haver metamorfoses nos âmbitos anímico, espiritual e social. Em vez de sair da espécie (degenerar), ele poderia pular a cerca (demasiado opressora). Trata-se de travar conhecimento com o próprio ego, ainda, e principalmente, quando ele não é um destacado contemporâneo e, por essa razão, não traz muita distinção ao meio circundante.  Em vez de sair da espécie, trata-se de encontrar a própria espécie. Em vez de separação, o que se procura é continuidade e responsabilidade por si mesmo.

A orientação terapêutica do radiologia americano Carl Simonton vai nessa direção de uma maneira muito corporal. Simonton, com bastante sucesso, deixa que seus pacientes entrem diariamente em uma guerra múltipla. Em meditações dirigidas, eles combatem o câncer no nível celular com sua agressividade que acaba de ser redescoberta. O sistema imunológico é apoiado em sua luta pela existência com imagens interna e fantasias criadas pela imaginação, e assim a agressão tão longamente reprimida passa a ser vivida. Á primeira vista, mas somente à primeira vista, o conselho de combater o câncer a todo custo parece estar em contradição com o princípio homeopático. Como o agressivo câncer, é justamente a agressão que é homeopática, pois trata-se de um remédio semelhante.

Embora estas primeiras etapas do despertar para as próprias necessidades seja também muito importante e não possa ser substituída, o caminho não pára aí. O “seja quente ou frio...” cristão é inevitável, mas o desenvolvimento continua, e então, finalmente trata-se de: “Se alguém golpeia sua face esquerda, oferece-lhe a direita”. Essas duas frases contraditórias já criaram muita perplexidade, porque se referem a diferentes etapas do caminho. É justamente neste ponto que é perigoso continuar a escrever, pois segundo todas as experiências, justamente aqueles pacientes que ainda têm de lidar muito e por muito tempo com os passos descritos até agora, de asserção agressiva de si mesmos, tendem a refugiar-se rapidamente nos “planos mais elevados”. Por trás disso está a suposição equivocada de que a realização de um tema tão sublime como o amor levará facilmente à libertação do ego, juntamente com suas energias agressivas. Mas quando se salta ou se abandona com demasiada rapidez um plano anterior, o plano seguinte não tem a menor chance. Não se ganha nada se alguém “morno”, por pura covardia, oferece a face direita após lhe terem golpeado a esquerda. O amor então se transformará em um sentimento morno, e a salvação em hipocrisia. Um paciente de câncer não pode se dar ao luxo de cometer tais erros, dos quais a ladainha de “luz e amor” da cena new age se aproxima muito.

Apesar do perigo de se incorrer em mal-entendidos, é necessário já ter em vista um objetivo, ainda que esteja muito distante. Mas os passos e tarefas seguintes pressupõem o domínio dos passos anteriores, pois caso contrário eles se transformam facilmente em um bumerangue. (...)

Por mais importante que seja a exibição das energias do ego durante o percurso, ela não pode ser o objetivo final. O caminho a seguir e o seu objetivo estão sempre implícitos ao próprio acontecimento cancerígeno. Em vez de crescimento corporal, trata-se de crescimento anímico-espiritual. O ser humano cresce fisicamente durante cerca de vinte anos; depois disso ele precisa continuar crescendo anímica e espiritualmente, ou então o crescimento afunda na sombra. Esse crescimento pode se dar no mundo exterior durante muito tempo, podendo, por exemplo, aproveitar as possibilidades correspondentes de um negócio em expansão. Mas em algum momento ele terá por objetivo a auto-realização em um sentido mais elevado. Em última instância, trata-se de tornar-se um com o todo, retornar ao Paraíso, ou seja, deixar que o eu e as sombras aflorem no self. Esse estado, que recebe tantos nomes diferentes em diferentes culturas e que mesmo assim quer dizer sempre a mesma coisa, não pode ser representado com exatidão a partir do mundo da polaridade. Palavras como eternidade, nirvana, reino dos céus, reino de Deus, paraíso, ser ou meio são somente aproximações. O problema, não só dos pacientes de câncer mas de todos os seres humanos, são os passos que levam a esse objetivo e à sua sequência.

A regressão retratada pelo processo cancerígeno, que corporaliza a busca da origem, indica o caminho. Em vez de regressão no corpo, trata-se de religio no âmbito anímico-espiritual. O crescimento degenerado e caótico em todas as  direções mostra o perigo, que o progresso sem objetivo termina na morte. Morrer, também, que paira ameaçadoramente sobre o acontecimento cancerígeno, é uma forma de retirada do mundo polar para a unidade. Todas as indicações apontam para um único ponto, a unidade. Mas isso não pode ser realizado com as forças do ego. Assim como é importante para o paciente descobrir seu ego, mais tarde será igualmente importante crescer para além dele. Depois que ele tiver aprendido a se impor, chega-se ao pólo oposto do plano de aprendizado: aprender a inserir-se na unidade maior. Primeiro pode ser importante protestar contra as regras estritas da vida laboral ou social, reconhecer que o próprio chefe não é nenhum deus. Mas quando o ego está desenvolvido e em plena possessão do poder pelo qual lutou, é preciso reconhecer que o caminho do ego leva à catástrofe tanto como sua repressão. Depois que a pequena ordem das regras mesquinhas foi saltada, é preciso encontrar a grande a aceitá-la. “Seja feita a Sua vontade”, diz o pai-nosso, e isso não quer dizer, como antes, o superior hierárquico ou o sócio ou o eu, mas Deus, ou seja lá como se queira chamar a unidade.

É neste ponto que está o principal engano do câncer, e ele volta a ser um espelho perfeito do principal engano da humanidade moderna. A célula cancerígena tenta alcançar a imortalidade por si mesma e à custa do resto do corpo. Fazendo isso, ela não vê que esse caminho, em última instância, a matará juntamente com o corpo, assim como a humanidade não viu até agora que sua ego-trip à custa do mundo somente pode terminar com o naufrágio conjunto. Não existe qualquer independência da unidade maior à qual se pertence. As justas ambições de auto-realização e imortalidade somente podem culminar no conhecimento espiritual de que o único objetivo é o si mesmo, a unidade com tudo. Esta não exclui nada nem ninguém, e por si mesma não se deixa conquistar pessoalmente de maneira egoísta. Ela contém tanto a individualidade como a ordem mais elevada. Ela se encontra no próprio meio, no de cada célula e no de cada ser humano e ainda assim é somente o Um. Não existe nem o meu self nem o seu self, somente o self.

É preciso encontrar a unidade, a imortalidade da alma em si mesmo, e reconhecer que o todo já está em nós mesmos assim como nós mesmos estamos no todo. Este, entretanto, é o ponto final, ou melhor, o ponto do meio, que somente pode ser aberto pelo amor. E isso também já está simbolizado no acontecimento do câncer. Assim como o  amor, o câncer também ultrapassa todas as fronteiras, cobre todas as distâncias, atravessa todas as barreiras, supera todos os obstáculos, assim como o amor ele não se detém diante de nada, estende-se por tudo, penetra em todos os âmbitos da vida, domina toda a vida; assim como o  amor, o câncer busca a imortalidade e nessa  busca, assim como o  amor, não teme nem mesmo a morte. O câncer, portanto, também é de fato um amor que mergulhou nas sombras.

(Dr. Rudiger Dahlke, psiquiatra – “A Doença Como Linguagem da Alma”)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Jung: Um Estudo de Caso (1904-1905)

Aprendendo com os mestres:

JUNG: UM ESTUDO DE CASO (1904-1905)

Durante os anos 1904-1905, organizei na clínica psiquiátrica um laboratório de psicopatologia experimental. Com um grupo de alunos estudava as reações psíquicas (isto é, as associações).  (...)

As experiências sobre associações e a experiência psicogalvânica tornaram-me conhecido na América; de lá vieram muitos doentes para me consultar. Guardei a lembrança de um dos primeiros casos:

Um colega americano me enviara um doente. O diagnóstico era: “neurastenia alcoólica”. O prognóstico dizia: “incurável”. Consequentemente meu colega aconselhara ao doente consultar certo neurologista famoso, em Berlim, prevendo que minha tentativa terapêutica malograria. O doente veio para a consulta e, depois de uma pequena conversa, constatei que sofria de uma simples neurose, cuja origem psíquica ele desconhecia. Fiz a experiência de associações e compreendi que sofria as conseqüências de um formidável complexo materno. Nascido de uma família rica e considerada, casado com uma mulher simpática, não tinha, por assim, dizer, preocupações de ordem exterior. Mas bebia demais: era uma tentativa desesperada de entrar em narcose para esquecer sua situação opressiva. Naturalmente, não conseguiu livrar-se de suas dificuldades através desse caminho.

Sua mãe era a proprietária de uma grande empresa e ele, cujos dons iam além do comum, desempenhava na firma o papel de diretor. Para dizer a verdade, deveria ter renunciado, há muito, a essa submissão à mãe, mas não podia decidir-se a sacrificar sua excelente situação. Permanecia, pois, acorrentado a ela, que lhe proporcionava o cargo. Sempre que estavam juntos, ou quando precisava submeter-se a uma de suas decisões, começava a beber para abafar suas emoções ou, então, para desembaraçar-se delas. No fundo, não queria sair do ninho cálido e, contra seu próprio instinto, sucumbiu à tentação do bem-estar e do conforto.

Depois de um curto tratamento, cessou de beber e considerou-se curado. Eu o avisei: “Não posso garantir que o senhor não caia no mesmo estado se voltar à antiga situação”. Ele não acreditou em mim e voltou muito animado para a América.

Mal se encontrou novamente sob a influência da mãe, pôs-se a beber. Depois, encontrando-se ela na Suiça, chamou-me para uma consulta. Era uma mulher inteligente, mas possuída por um demônio de poder de primeira grandeza. Pude então descobrir diante do quê o filho teria que viver, e percebi que ele não teria forças para resistir, era também fisicamente frágil, não podendo competir com a mãe nem nesse aspecto. Resolvi-me então a um ato de violência: sem preveni-lo, entreguei à mãe um atestado, dizendo que em razão de seu alcoolismo ele não poderia continuar por mais tempo no cargo que ocupava. Era necessário despedi-lo. Esse conselho foi seguido e, naturalmente ele ficou furioso comigo.

O que decidi não podia, normalmente, coincidir com a consciência médica. Mas sabia que para o bem do doente, deveria assumir essa responsabilidade.

Como evoluiu posteriormente esse homem? Separado da mãe, pôde desenvolver sua personalidade: fez uma carreira brilhante, apesar – ou por causa – do “tratamento cavalar” que lhe impusera. Sua mulher ficou-me grata: o marido não só vencera o alcoolismo, como também seguia agora seu caminho pessoal com grande sucesso.

Durante anos senti culpa em relação a esse doente, porque assinara, a despeito dele, este atestado. Mas sabia perfeitamente que só um ato de violência poderia tê-lo salvo. Dessa forma, sua neurose desapareceu.

“Mémorias, Sonhos, Reflexões” – C.G. Jung

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Câncer: Uma Abordagem Psicossomática (7)


CÂNCER: UMA ABORDAGEM PSICOSSOMÁTICA (Anexo 7)

O CÂNCER NO PLANO SOCIAL

A célula cancerígena quer tomar todo o mundo (corpo) de assalto e fazer tudo à sua maneira. É por essa razão que ela penetra em toda parte, enviando seus agressivos “missionários” até os recantos mais afastados do país (corpo). A medicina as chama de filiae (latim:filhas) ou metástases. Esta última palavra é grega e quer dizer transformação, transplante ou migração. A pretensão de poder “meter-se” até mesmo nas partes mais afastadas do corpo está feita sob medida para a célula embrionária, que em sua indiferenciação ainda traz em si todas as possibilidades. No entanto, desenvolvimento significa, entre outras coisas, limitação e especialização. A célula cancerígena superou ou perdeu de vista a ambas.

A comparação do comportamento adulto e infantil revela a imaturidade de tal postura. A criança ainda tem o direito de ver-se em todas as profissões e todas as formas de vida e de acreditar que seu papai, sendo um aumento de seu próprio eu, pode tudo. Ela pode sonhar que viaja por todo o mundo sem precisar preocupar-se com questões concretas tais como a obtenção dos meios necessários. Sua reivindicação de brincar em todos os brinquedos do playground e, além disso, participar de todos os jogos pode irritar os pais, mas não chega a ser um problema nessa fase. Um adulto que fizesse essas exigências, ao contrário, chegaria rapidamente a um impasse com o meio circundante, deixando apenas duas alternativas: ou ele ou o meio circundante. Ele é convencido ou obrigado pelo meio a adaptar-se a suas exigências, o que o força a uma espécie de amadurecimento precoce, que corresponde à tentativa de ressocialização no cumprimento das penas, ou então ele é confinado definitivamente.

A segunda possibilidade, a de que essa pessoa prevaleça sobre seu meio e imponha sua vontade, é mais rara. No plano anímico-espiritual, as tentativas correspondentes são consideradas megalomania, quase sempre subjugadas e confinadas “com êxito” em uma instituição psiquiátrica. É relativamente raro que um “louco” consiga realmente tomar o poder. No âmbito político, as tentativas correspondentes são combatidas como terrorismo e quase sempre submetidas por meio da violência, e só muito raramente através do poder de persuasão. Os terroristas chamam a si mesmos de revolucionários, às vezes também falam de células revolucionárias, mas para o estado afetado são considerados criminosos que não devem esperar nem clemência nem consideração. Caso vençam, seu poder será respeitado, pois eles serão os novos senhores do país.

No âmbito econômico, os representantes da atitude correspondente são aplaudidos desde o início, já que o câncer evidencia a altitude que faz o êxito empresarial. O empreendedor típico da primeira fase do capitalismo ultrapassa as fronteiras estabelecidas e ataca a concorrência sem compaixão, expulsando-a da área, já que com o poder de seus cotovelos pressiona-a contra a parede e a tira do negócio, mina o seu terreno ou pelo menos se infiltra em seus mercados. Em lugar de metástases, sucursais, filiae tornam-se filiais, empresas afiliadas são fundadas. No princípio a matriz, como o tumor correspondente, cresce para além de si mesma, então ela se infiltra na vizinhança para finalmente tornar-se ativa por todo o país e, idealmente, no mundo todo. Estar presente em toda parte e ter tudo sob controle. Este é o credo do capitalismo e o comportamento tradicional das grandes empresas. Evidentemente, procede-se de maneira agressiva e desconsiderada.

As metástases do câncer e as sucursais das empresas têm objetivos análogos. Elas se esforçam para colocar o máximo possível de seu próprio programa sem dar a menor chance às forças locais. O modelo ideal do câncer torna-se explícito no mapa-mundi em um escritório empresarial. Um grosso círculo vermelho no meio assinala a localização da empresa matriz, que se infiltra nas regiões circundantes com pequenas filiais marcadas também em vermelho, porém menores. Estas metástases diminuem em número à medida que nos aproximamos da periferia. Alguns países ainda estão livres, enquanto que em outros há grandes colônias que por sua vez disseminam filiais ao seu redor. Os mapas assinalados dessa maneira são assombrosamente semelhantes às imagens de corpos tomados pelo câncer, obtidas por procedimentos de diagnósticos tais como a cintilografia.

Há um outro paralelo ao acontecimento cancerígeno, menos carregado de emoção porque já superado pela história, que é a do colonialismo. A formação de colônias fora do próprio país, considerada do ponto de vista de cada império, era uma estratégia cancerígena. Na medida do possível, querer-se-ia colocar o mundo inteiro sob a própria influência e eles de forma alguma sentiam-se constrangidos em invadir violentamente as fronteiras e atacar brutalmente culturas em sua maioria intactas, somente que menos agressivas. As condições de vida não eram nem respeitadas nem poupadas, e as pessoas que se encontrava eram declaradas minorias e escravizadas. Cada império estava de tal maneira convencido da própria megalomania a ponto de querer lançar em todo o mundo grandes ou pequenas edições da Inglaterra, da Espanha, de Portugal, da França ou da Alemanha. Somente os outros impérios, igualmente canceromorfos, colocavam limites a seu crescimento invasivo. Tal como seu pendant anatômico, os reinos coloniais frequentemente tinham problemas de abastecimento, mas tratava-se, sobretudo, de expansão e, muito menos da falta de infra-estrutura necessária para tal. Assim como nos tumores, pode-se encontrar nos restos, digamos, do império colonial português, uma notável carência de infra-estrutura. Com essa espécie de crescimento indiferenciado, muito veio abaixo tanto nas colônias metastáticas como na matriz das numerosas filhas malvadas. Em um determinado momento, tumores matrizes minúsculos tais como Portugal ou a Inglaterra tinham pendentes de si impérios gigantescos, que continuavam a se expandir e a consumir energia. A Inglaterra aproximou-se especialmente da imagem do câncer com suas colônias totalmente emancipadas do “tumor matriz” (EUA, Canadá, Austrália, Rodésia ou África do Sul). A história da época colonial deixa claro que, no que se refere aos tumores nacionais, tratava-se muito mais de expansão e ostentação de poder que de comércio e intercâmbio. De maneira semelhante a cabeças hidrocefálicas, administrações coloniais infladas parasitavam países economicamente indigentes cuja estrutura própria tinha sido saqueada, apoiando-se nas costas de “primitivos” escravizados cujo caráter certamente jamais atingiu o grau de primitivo daqueles que os colonizava,. As células cancerígenas, com seus núcleos superdimensionados exibem, em relação a seu entorno, um excesso de primitivismo semelhante.

O padrão do câncer não confirma o de nosso mundo apenas em grandes traços, podendo ser seguido em detalhe para aqueles que têm olhos para vê-lo. O crescimento das grandes cidades modernas oferece uma imagem explícita de ânsia de expansão de tipo canceromorfo. As fotos tiradas por satélites mostram como elas devoram e ulceram a paisagem circundante. Tal como um tumor canceroso, elas confiam no crescimento desalojador e infiltrante, enquanto ao mesmo tempo emissários isolados são enviados sob a forma de cidades-satélite, cidades-dormitórios, zonas industriais e outras atividades metastáticas.

Quando se considera a Terra como um todo, a maneira como por toda parte ela é cancerigenamente devorada, saqueada impiedosamente e privada de sua capacidade de reação, a imagem correspondente àquela de um corpo que sucumbiu ao câncer. Quanto à avaliação do estágio em que ela se encontra, se ainda pode lutar para defender-se ou se já está em estado terminal, os economistas, biólogos, teólogos e outros “istas” e “ólogos” não chegaram a um acordo. O correspondente estado de resignação do corpo frente à energia vital juvenil do câncer chama-se caquexia. Ela se entrega à consumação, demonstrando em sua atitude de entrega que está aberto para passar ao outro mundo. Como a nossa Terra continua tentando regenerar-se e se defende energicamente do pululante gênero humano, ainda há esperança para ela.

Mas não somente os princípios de nossa maneira de pensar no que se refere à Terra assemelha,-se àqueles da célula cancerígena, nós compartilhamos também um lapso decisivo, ou seja, não medimos as conseqüências de nosso comportamento: a morte de todo o organismo implica inevitavelmente na morte de todas as suas células, inclusive as células do câncer. Elas conseguem liberar-se de seu ambiente e aproximar-se do ideal de autarquia, onipotência e onipresença. Tal como um organismo unicelular, que depende unicamente de si mesmo, concentrando todas as funções em um único corpo, elas se transformam em um guerreiro solitário praticamente independente em meio à comunidade celular. Elas trocam suas habilidades altamente especializadas pela imortalidade potencial, tal como possui o organismo unicelular. Os organismos unicelulares e as células cancerígenas permanecem vivos enquanto á alimento suficiente. Todas as outras células organizadas estão ligadas a uma expectativa de vida natural, estabelecida em seu material genético. As células do câncer desativaram essa limitação e não mostram nenhuma tendência ao envelhecimento, como o demonstra um experimento macabro. As células de um tumor cujo proprietário morreu nos anos 20, justamente devido a esse tumor, vivem e se dividem até hoje em uma solução nutriente sem mostrar qualquer sinal de envelhecimento ou cansaço. O fato de as células cancerígenas normalmente morrerem logo após a morte de seu hospedeiro deve-se ao esgotamento do suprimento de alimento e energia. Enquanto o organismo unicelular realmente perdura independente e imortal em seu mundo aquático de superabundância, a célula cancerígena não percebe que é apenas potencialmente imortal e já não pode tornar-se independente. Exatamente como o ser humano no mundo, seu destino estará sempre ligado ao corpo em que vive.

A caricatura de nossos ideais, representada pelo câncer, deixa claro que nosso planeta já atingiu a fase de erupção da doença. Mais decepcionante ainda, no entanto, é o incômodo conhecimento de que nós mesmos somos o câncer da Terra. Do mesmo modo, o crescimento de nossa ciência é tão demente como o do câncer. Os índices de crescimento são enormes, mas o empreendimento não tem nenhum objetivo que possa ser alcançado. O objetivo do progresso é mais progresso e assim, por princípio, caminha rumo ao futuro e para fora de nosso alcance. O câncer também tem um objetivo pouco realista. Este se encontra em sua sombra e é a ruína do organismo. Se fôssemos mais honestos, teríamos de admitir que o objetivo final de nosso progresso é igualmente a ruína do organismo Terra. Bastaria que os piedosos desejos dos políticos se tornassem realidade e os países em desenvolvimento saíssem do atraso tecnológico em que se encontram para que a já ameaçada ecologia deste planeta recebesse um golpe mortal. Em todo caso, pode-se ficar tranqüilo em relação a isso, já que esses desejos não são levados com muita seriedade. Entretanto, aqueles desejos que insistem em um progresso linear para nossa parte do mundo o são totalmente, e eles têm algo de degenerado, já que colocam a espécie em risco. Sem a consciência de nossa origem na natureza e sem ter um objetivo no âmbito espiritual, corremos o perigo de nos tornarmos um câncer que não pode mais ser controlado. Nós já preenchemos todos os pré-requisitos necessários para tal.

Quando essa doença maligna mostra sua face terrível, nos assustamos porque reconhecemos a nós mesmos. Não queremos ver-nos de maneira tão honesta, recusamos um espelho tão nítido. A humanidade tem isso em comum com todos os pacientes.
(Dr. Rudiger Dahlke -A Doença Como Linguagem da Alma)

Câncer: Uma Abordagem Psicossomática (6)


CÂNCER; UMA ABORDAGEM PSICOSSÓMÁTICA (Anexo 6)

CÂNCER E DEFESA

Dos diagnósticos e sintomas mencionados, o câncer representa um processo de crescimento e regressão mergulhado no corpo. A estes dois soma-se ainda um terceiro componente, a defesa. A situação básica do câncer pode criar-se ao longo dos anos sem chegar à formação de um tumor. A medicina, e principalmente a medicina natural, conhecem essa situação e a chamam de pré-cancerosa. Os pressupostos anímicos descritos podem estar presentes há muito tempo, assim como os pressupostos físicos sob a forma dos estados carcinogênicos e de estimulação correspondentes, e ainda assim o câncer pode ser disparado somente após a ocorrência de determinados estímulos. Até então, é como se ele estivesse preso e subjugado por um sistema imunológico dominador. Somente o colapso do sistema de defesa é detectado por muitos pacientes, sendo caracterizado retrospectivamente como uma época de estados de tensão e angustia.

A estreita relação entre o câncer e o sistema imunológico é mostrada ainda pelo fato de o câncer utilizar o sistema de defesa que na verdade deveria combatê-lo para espalhar-se. Ele é atacado e expulso dos gânglios linfáticos pelos linfócitos e utiliza os canais linfáticos  para seguir adiante. Os gânglios linfáticos são lugares favoritos para o ataque. Ocupando as casernas do equipamento militar do corpo e avançando por suas estradas, o câncer demonstra como seu ataque é corajoso e que está disposto a ousar tudo em um confronto total. Por outro lado, lá mostra-se também a fraqueza da defesa. Ela está literalmente de mãos atadas. O câncer consegue ficar em tal situação graças a uma camuflagem perfeita. Assim como está em posição de desativar os “genes alterados” de suas células, o câncer consegue deixar também sem energia o sistema que permite reconhecer as células desde o exterior. Por trás dessa camuflagem, as células cancerígenas podem meter-se diretamente na cova do leão, no centro de defesa, sem serem reconhecidas e, sobretudo, impunemente. É neste ponto que existe a chance de uma terapia médico-biológica no nível funcional. Quando se consegue desarmar as células cangerígenas imunologicamente, elas passam a correr grande perigo.

A questão do que, em um nível mais profundo, leva ao não-funcionamento do sistema de defesa e à correspondente situação de humilhação, pode ser respondida de maneira geral e não se limita ao processo cancerígeno. O fenômeno aparece em cada resfriado: assim que uma pessoa está até o nariz e se fecha animicamente, o corpo, substitutivamente, abre-se aos agentes irritantes correspondentes e o nariz concreto se fecha. Expresso medicamente, uma fraqueza das defesas deixa o afetado suscetível. Quando a consciência se fecha para os temas irritantes, o corpo precisa se abrir substitutivamente para os irritantes correspondentes. A defesa imunológica torna-se então cada vez mais fraca na medida em que a defesa no nível da consciência é exagerada.

Fundamentalmente, o ser humano está equipado com uma defesa saudável em ambos os níveis. Evidentemente, frente a um mundo estranho cheio de perigos, é importante proteger as fronteiras do corpo com a ajuda de um sistema imunológico vital. Nós precisamos igualmente de uma certa defesa anímica, para não sermos inundados por impressões demasiado fortes que nos fariam cair na psicose. O objetivo, em ambos os níveis, é o ponto médio entre a abertura total e o fechamento absoluto. Caso se vá longe demais em um dos níveis, o outro é desequilibrado na direção contrária. Quem se fecha demais na consciência, sendo portanto demasiado avesso aos conflitos, força a abertura para as sombras, e ela então emerge no corpo sob a forma de suscetibilidade aos agentes patológicos.

O estado ideal caracteriza-se por uma ampla abertura anímica assentada sobre uma base de força. Pode-se deixar entrar tudo o que imagina sem precisar temer pela própria saúde anímica. Isso é possível sobre a base de uma defesa potencialmente forte, que além disso não entra em ação praticamente nunca. Caso isso seja necessário, seu proprietário pode confiar em seu poder de penetração. Justamente porque pode dizer não de maneira decidida e assim proteger seu espaço vital, ele raramente a necessita. A defesa que lhe corresponde, graças a seu bom treinamento, elimina qualquer agente patológico e está à altura de qualquer exigência. Exatamente por não ser poupada, confrontando-se com muitos desafios em uma vida corajosa, ela está sempre pronta para a luta e segura da vitória. A principal razão de ela não correr o risco de sucumbir aos agentes patológicos deve-se a que ela não é enfraquecida pelo plano anímico. Quem se deixa atacar na consciência e se defende lá mesmo, não precisa empurrar o tema para o corpo.

O fechamento exagerado na consciência e a conseqüente abertura grande demais no corpo é muito mais freqüente em um mundo que obtém a maior parte de sua cultura e de sua civilização evitando os conflitos. Quando o não-poder-dizer não que evita os conflitos mergulha no corpo, volta a tornar-se visível sob a forma de incapacidade de limitar-se. A experiência de vida cotidiana confirma este princípio. Uma pessoa que enfrenta a vida abertamente (=vital) dispõe de uma defesa corporal saudável, sendo portanto menos propensa a infecções. Uma pessoa estreita, medrosa, “pegará” mais agentes patológicos e cultivará os resfriados correspondentes mais frequentemente devido a seu mal equipamento de defesa. Ao contrário, uma pessoa entusiasmada, que se inflama com um tema, praticamente não pode se resfriar, não em uma situação tão aberta. Todos tiveram a experiência de uma coriza fulminante que desaparece por si mesma após uma pessoa passar duas horas assistindo com entusiasmo um filme de suspense. Somente ao final do filme, quando se lembra que o nariz estava escorrendo, é que o nariz volta a se encher.

É necessário que o bloqueio e o fechamento sejam muito profundos para que o colapso da defesa seja tão completo a ponto de permitir o surgimento de um tumor. Tais constelações afloram quando uma pessoa não se abre mais para um aspecto essencial de sua vida. Caso esse contato já esteja por um fio e este se rompa bruscamente, é como se o fio da vida se rompesse. Caso uma pessoa depressiva que praticamente não se comunica mais com o meio circundante perca a única pessoa com quem se relaciona, isso pode realmente acontecer. Como não participa mais do fluxo da vida sem essa pessoa, ela pode se recusar a aceitar uma perda tão despropositada. Sua defesa anímica aumenta na mesma medida em que ela fecha sua consciência para a perda, e a defesa corporal entra em colapso. Assim, o sistema imunológico passa a ser um anúncio de abertura e vitalidade.

Em pacientes que sofrem algum tipo de depressão, tudo o que torna real essa situação tão volátil pode levar a um enfraquecimento decisivo do sistema imunológico. A demissão de um emprego que tinha se transformado no próprio conteúdo da vida pode bastar, ou uma decepção definitiva com um sócio após anos de engano. Partindo de seu padrão interno, o típico paciente de câncer costuma se envolver em tais situações. Seu ser adaptado e, além disso, oprimido, volta uma e outras vez a se colocar sob pressão para arriscar uma nova tentativa de revificação. Cada uma dessas tentativas pode tornar real a sensação de absurdo mantida sob controle a tão duras penas, e um novo fechamento repentino pode desencadear a erupção da doença. Os pacientes de câncer que têm êxito também encontram inúmeras possibilidades para fechar-se à energia da vida. Qualquer coisa que coloque em questão a máscara de sua depressão, o sucesso, está apta para isso.
(Dr. Rudiger Dahlke - A Doença Como Linguagem da Alma)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Câncer: Uma Abordagem Psicossomática (5)


O CÂNCER COMO CARICATURA DE NOSSA REALIDADE

Relatos sobre pessoas com câncer que foram “inesperadamente ceifados da vida pela pérfida doença na flor da idade, no auge de suas carreiras e de suas responsabilidades” parecem contradizê-lo diametralmente. Quando se observam as histórias de vida que estão ocultas por trás disso, tal forma de falar reflete uma assombrosa cegueira para temas sombrios. Um olhar mais atento revela que o acontecimento não se deu de forma assim tão repentina e sem prévios sinais de alarme. Justamente a falta de qualquer reação corporal e qualquer sintoma é um sinal de “normopatia”.

A ênfase nas grandes responsabilidades, quando examinada com precisão, revela que o afetado cumpria com os seus deveres sem se queixar. Responsabilidade, ao contrário, significa a capacidade de dar uma resposta às necessidades da vida. Mas os pacientes potenciais de câncer não possuem essa capacidade. Como eles não podem impor limites e mal podem dizer não, eles facilmente se deixam sobrecarregar com obrigações. Por outro lado, eles se assumem de bom grado, para dar um sentido externo a suas vidas – na falta de um sentido interno. Os logros e êxitos obtidos são portanto bons disfarces – por trás dos quais pululam sentimentos de falta de sentido e depressões.

A psiquiatria conhece como depressão larval aquelas depressões por trás das quais se ocultam sintomas físicos. Por ocasião dos acontecimento cancerígeno, não é raro encontrar depressões ocultas atrás do êxito externo. Aqui, a larva é tida em tão alta consideração pela sociedade que não se pode nem mesmo pensar em um sintoma. Sob muitos pontos de vista, a típica personalidade cancerígena é considerada modelar. Ela é valente e não agressiva, quieta e paciente, atua de maneira equilibrada e tão simpática porque não é egoísta, além disso é desinteressada e solícita, pontual e metódica – não lhe falta praticamente nenhum dos ideais desta sociedade, e portanto não é de admirar que esteja intimamente ligada a esse sintoma. O êxito social, apesar ou justamente devido à rigidez interna, pertence ao âmbito dos típicos ideais secundários, mas se ajusta perfeitamente à imagem ideal do homem moderno. Tampouco se pode negar que o câncer obtém um êxito impressionante no plano superficial. Praticamente nenhuma outra doença pode subjugar um organismo e ajustá-lo a seus próprios desígnios tão rapidamente, nenhuma é tão tenaz e resistente às medidas defensivas e terapêuticas.

Não é de admirar que tenhamos tanto medo do câncer, já que nenhum outro sintoma está mais equipado para nos mostrar o espelho. O câncer personifica a transformação dos dignos ideais secundários no pólo oposto, o princípio do ego total. A caricatura física desse ideal costuma ser levada a mal, como toda caricatura. Mas sempre que tal ocorre como uma caricatura desse destino, isso não acontece porque ela é falda, ao contrário: ela se ajusta a ele e até mesmo o supera.
("A Doença Como Linguagem da Alma" - Dr. Rudiger Dahlke)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Câncer: Uma Abordagem Psicossomática (4)


REGRESSÃO E RELIGIÃO

Paralelamente àquilo que foi dito até agora, torna-se claro na regressão um outro motivo básico do adoecimento por câncer que, igualmente mergulhado nas sombras, é vivido de maneira substitutiva pelo corpo. Regressão é a volta aos inícios, à origem. Os afetados perderam o contato com sua origem primária, as células do tumor têm de viver o tema em si mesmas e o fazem corporalmente à sua maneira letal. A pessoa evidentemente precisa do relacionamento vivo com suas raízes, a re-ligio.

Mas isso não significa apenas o passo atrás, mas também uma retomada. Somente o passo atrás que se torna uma religação torna o progresso real possível. Essa aparente contradição é expressa também na imagem do câncer. Por um lado as células dão um passo atrás e retrocedem às primitivas formas juvenis e por outro, com a tendência à onipotência e à imortalidade, progridem furiosamente.

Tal contradição somente pode ser resolvida pelo sentido primário da religião. Religio quer dizer religação com a origem, com a unidade. Por outro lado, esta unidade chamada de Paraíso pela cristandade, é também o objetivo do caminho de desenvolvimento cristão. Segundo a Bíblia, os homens provêm do Paraíso e um dia devem voltar para lá. É o caminho que vai da unidade inconsciente para a unidade consciente. A expulsão do Paraíso é completada pelo retorno do filho pródigo à casa de seu pai. Podemos ver quão profundamente este padrão arquetípico está enraizado no ser humano pelo fato de a religião hindu descrever o caminho de maneira bastante análoga: “Daqui para aqui”. O antigo símbolo do uroboro, a srpente que morde a própria cauda, é a imagem mais oportuna deste padrão verdadeiramente abrangente. As religiões sempre descrevem o caminho rumo à iluminação, ou seja, rumo à imortalidade, como uma caminhada para a frente em direção à saída e o caminho como um movimento circular, ou seja, em espiral. Consideração e cuidado são igualmente necessários e visam o mesmo objetivo, a unidade.

Nos pacientes de câncer, a recuperação da consciência da origem com a pergunta “De onde venho”, assim como a perspectiva futura, com a pergunta “Para onde vou”, saíram da consciência para mergulhar nas sombras, passando a ser representadas corporalmente. O cuidado e consideração exagerados com que os afetados se mantêm nos estreitos limites da vizinhança e do futuro concretos mostram como eles se tornaram míopes para o significado direto das perguntas. Eles têm tanta consideração para com as outras pessoas, sua moral e suas regras de vida e vão ao encontro do amanhã e de tudo que é novo e distante com tanto cuidado, que não sobra espaço algum para as grandes questões do passado e do futuro. O processo cancerígeno, com sua regressão ao abismo e seu avanço desesperado, é um espelho tão terrível como fiel da situação.

O retorno consciente ao início, com suas possibilidades ilimitadas, e a busca de valores eternos, são caminhos totalmente válidos. O deslocamento para o inconsciente, ao contrário, leva à “doença como caminho”. E também esse caminho é sempre um caminho que, mesmo sendo terrível, traz em si a possibilidade de dar frutos. É algo assim como uma última sacudida para que se desperte para as próprias necessidades.

É aí que se encaixa a experiência psicoterapêutica de que frequentemente os pacientes de câncer são profundamente “arreligiosos”. E ainda que muitos perfis de personalidade pareçam contradizer isso e enfatizem a religiosidade e a devoção ao destino, trata-se na maioria das vezes daquela crendice de igreja que não tem nenhum ponto de contato com a religio, mas que deixa que a vida seja administrada e regulamentada pela autoridade eclesiástica. Aferrar-se a prescrições religiosas e na verdade o contrário da religio e deixa o coração frio e vazio. O que parece uma impressionante vida religiosa para o exterior, evidentemente pode ser oco no íntimo. A falta de vida no centro de uma atividade externa exagerada é representada anatomicamente por muitos tumores que têm seus centros necrosados (=partes mortas). De maneira semelhante, a devoção, a entrega ao destino descoberta pelos sociólogos da medicina não deve ser confundida com a postura religiosa do “Seja feita a Sua vontade!” Na maioria das vezes, trata-se de resignação em relação a um destino sentido como superior, mas que não se aceita. No mais profundo íntimo, a base da entrega não é a confiança na criação de Deus, mas sim o desespero e a impotência. Em vez de entregar-se à vida e às suas possibilidades, os pacientes potenciais de câncer estão entregues  a seus cuidados e considerações a curto prazo e a um medo fundamental da existência.
 
("A Doença Como Linguagem da Alma", Dr. Rudiger Dahlke)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Câncer: Uma Abordagem Psicossomática (3)


CÂNCER: UMA ABORDAGEM PSICOSSOMÁTICA (Anexo 3)

FASES DE DESENVOLVIMENTO DO SINTOMA

A imagem delineada até agora parece fazer justiça somente a uma pequena parte dos pacientes de câncer pois estes, de uma maneira geral, apresentam um padrão de comportamento que parece antes o contrário. Isso se deve a que o padrão reprimido do câncer quase sempre, por um lado, compensa, e por outro, descreve tais perfis de personalidade na época anterior ao surgimento do sintoma. Mas nesta fase o corpo também apresenta uma imagem muito diferente. É o estágio da excitação contínua, que os tecidos e suas células toleram sem reagir. Elas tentam se proteger e erguer barreiras na medida do possível para, através da imobilidade, sobreviver, ou seja, suportar a desagradável situação. Caso uma célula experimente rebelar-se contra a estimulação prolongada e tente seguir seu próprio caminho, degenerando, saindo da espécie, essa insurreição é imediatamente reprimida pelo sistema imunológico.

Neste padrão, que corresponde à primeira fase da doença, fica caracterizada a personalidade típica do câncer. São pessoas extremamente adaptadas que tentam viver da maneira mais despercebida possível, adequando-se às normas e mais incomodando alguém com as próprias exigências. Elas em grande medida ignoram os desafios para crescer espiritualmente e para o desenvolvimento anímico, já que de maneira alguma querem se expor. Sua vida é pouco estimulante em um duplo sentido: por um lado elas evitam, sempre que possível, experiências novas que poderiam movimentar sua vida, já que mal se atrevem a aproximar-se de suas fronteiras. Elas tratam de ignorar os poucos estímulos que rompem sua couraça defensiva. A repressão das possibilidades de experiências-limite reflete-se imperceptivelmente na interrupção da atividade defensiva do corpo, que mantém tudo seguramente sob controle. Experiências que ultrapassam os limites ou simplesmente alguma inofensiva pulada de cerca são sufocadas ainda em gérmen para, a qualquer preço, manter a situação costumeira como sempre.

O degrau seguinte da escalada mostra como esse preço pode ser alto: é quando a corrente de impulsos de crescimento estancada durante anos rompe o dique da repressão e goza descontroladamente a vida até o esgotamento. Após o rompimento do dique, não há nem volta nem parada. O corpo lança-se aquece outro extremo que até então tinha reprimido abnegadamente. Frequentemente o fenômeno da repressão mostra-se tanto na história anímica da vida como na história das doenças do corpo. Não é raro encontrar as chamadas anamneses vazias, ou seja, que o afetado não apresentava o menor sintoma anos e até décadas antes do surgimento do câncer. O que à primeira vista parece uma saúde imaculada, revela-se como rigorosa repressão a um olhar mais atento. Não somente os desvios anímicos da norma, os desvios corporais também foram totalmente reprimidos. Neste contexto, o psico-oncologista Wolf Buntig fala de “normopatia” quando o ater-se rígida e inflexivelmente às normas transforma-se em doença. O que poderia parecer como contenção simpática ou nobre, pode ser na verdade repressão de impulsos vitais e, em última instância, vida não vivida. Assim como a célula sob estimulação forte e constante faz tudo o que pode para continuar desempenhando seu dever como célula do intestino ou do pulmão, os pacientes também tentam perseverar no cumprimento satisfatório de seus deveres como filha, filho, mãe, pai, subordinado, etc., em detrimento de suas necessidades individuais. O próprio desenvolvimento deve ficar para trás, como acontece com a célula martirizada.

De maneira correspondente, a tendência fundamental dessa vida “não vivida” é também reprimida. Muitas vezes, o afetado não tem consciência de sua disposição depressiva latente, da mesma maneira como não é consciente da repressão das tentativas de insurreição do corpo. O meio ambiente não percebe nada, já que ele não mostra nenhuma inclinação a participar disso, demonstrando menos ainda qualquer disposição a realmente compartilhar a vida com outros. É somente quando o dique é rompido e a vida reprimida irrompe que a disposição de participar vem à língua de maneira livre e veemente.

Na fase do surgimento dos sintomas, os afetados já são de fato “pacientes”, eles são sofredores assombrosamente pacientes. Independentes em grande medida do meio que os cerca e em prol das boas relações de vizinhança, eles o tempo todo dão mostras de amigável consideração. Além disso, eles são pessoas confiáveis com quem se pode contar, embora estejam repelindo os impulsos de mudança ainda em gérmen. Em seu esforço para não incomodar e não ser um fardo para ninguém, não é difícil para os pacientes fazer amigos. Mas isso impede que se formem amizades profundas, já que eles não conhecem nem a si mesmos em sua individualidade e não podem nem mesmo mostrar-se realmente. Como eles não apóiam a si mesmos, parece fácil aos outros estar a seu lado. Então, quando no decorrer da doença aparecem traços de caráter mais profundos, porque eles começam a afirmar sua própria vida, não é fácil nem para os pacientes nem para o meio circundante aceitar essas facetas totalmente inesperadas. Os pacientes normopatas têm, frequentemente, a seu redor pessoas que estão em dívida para com eles. Como eles sempre se esforçaram para fazer tudo direito e deixaram para trás o próprio crescimento, pessoas com uma ressonância correspondente passam a estar agora a seu lado.

O comportamento social dos pacientes pode ser descrito exemplarmente a partir do componente social a que chamamos “maioria silenciosa”, à qual eles mesmos pertencem muitas vezes. Com razão eles se consideram pilares da sociedade. Entretanto, por trás dessa fachada de ordem modelar espreitam todas aquelas características contrárias que se tornam evidentes no nível substituto, no corpo, quando o segundo estágio do surgimento do câncer se instaura. O que jamais foi ventilado na consciência encontra agora seu palco, um palco onde acontecem sobretudo dramas, ou seja, “jogos de sombras”.

Os impulsos de mudança que foram repelidos ao longo dos anos se estendem pelo corpo sob a forma de mutações. Esquece-se o que se faz ou se deixa de fazer, agora a única coisa que interessa é a própria ego-trip. A perfeita adaptação social transforma-se em parasitismo egoísta que não respeita nem a tradição nem os direitos alheios. E se antes a pessoa não se permitiu uma única opinião própria, emerge agora das sombras a longamente reprimida pretensão de dar forma a todo o mundo (corpo) segundo a própria imagem. O organismo é saturado de filiae, as filhas portadoras da morte. A sementeira anímica retida por longo tempo emerge agora corporalmente em tempo recorde e mostra como era forte o desejo até então não vivido de auto-realização e de imposição dos próprios interesses.

A erupção do sintoma pode tornar visível uma grande parte das reivindicações reprimidas do ego, em contraste co m o comportamento do paciente. Quando esses componentes sombrios saem à superfície, é principalmente o meio circundante que fica admirado. Pessoas até então pacatas exigem repentinamente que tudo gire em torno delas e de sua “doença”. Tendo o diagnóstico como álibi, elas agora se atrevem a virar a mesa e deixar que os outros dancem segundo sua música. A contenção e, literalmente, o compasso podem agora ser atirados sobre a amurada para serem substituídos por sons totalmente novos. Pessoas idealmente adaptadas repentinamente saem da raia e pulam a cerca. Por mais desagradável que tal atitude possa ser para o meio circundante, há nisso uma grande oportunidade para o afetado. Caso a partir de agora os princípios de transformação, de auto-realização e de consecução passem a ser vividos no plano anímico-espiritual e se tornem visíveis no nível social, o plano corporal é aliviado. Entretanto, muitos pacientes foram tão longe no papel de cumpridor das normas que chegam a manter o papel de mártir mesmo em face da morte. Sem o alívio do plano anímico, o princípio do ego permanece voltado exclusivamente para o palco do corpo. As chances de acabar com o câncer são muito melhores quando toda a pessoa admite o confronto e não envia unicamente o corpo como seu representante na batalha. Para acabar realmente com algo, é necessário primeiro admiti-lo.

Após a primeira fase de contenção e a subseqüente erupção do câncer, fase que muitas vezes dura décadas, confronta o paciente a última etapa, da caquexia, com um terceiro padrão. O corpo se entrega à devoração de suas energias pelo câncer. No sentido mais verdadeiro da palavra, ele se deixa devorar sem oferecer resistência. A devoção e a entrega ao curso do destino são vividos substitutivamente pelo corpo. Ao final, todo paciente vivencia este tema: conscientemente, quando consegue trazer a temática de volta ao nível espiritual, ou inconscientemente caso o corpo seja abandonado em sua atitude de entrega e o paciente continue lutando contra o inevitável. Parece haver aqui uma contradição, já que imputamos ao afetado o fato de ele não lutar o suficiente, deixando-se conduzir pela vontade dos outros. Neste ponto há um encontro de dois planos, dos quais nos ocuparemos no próximo capítulo. Por um lado, o paciente de fato luta muito pouco, por outro lado ele luta em demasia. Em relação ao seu ambiente, que o degrada a determinadas funções, ele decididamente luta pouco. Para isso ele se defende tanto mais de suas tarefas vitais, se caminho e seu destino. Ele poderia abandonar essa resistência com toda a confiança. Em qualquer caso, seu sintoma o força a isso, pois tanto vencendo o câncer como sendo vencido por ele, a fase de rendição ocorrerá.
(extraído do livro "A Doença Como Linguagem da Alma", do Dr. Rudiger Dahlke)