quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
relaxamento1
Exercício de relaxamento baseado nas técnicas de visualização criadora. Indicado para pessoas que tem dificuldade em relaxar ou meditar sozinhas. Para aqueles que padecem de ansiedade, recomendamos praticá-lo antes de dormir.
Boa prática!
Boa prática!
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
O Sabotador Interno: O Lado Psicótico do Ego
Desde Freud, passando por K. Abraham, R. Sterba, Fairbain,
Winnicott, Bion e vários outros, evidenciou-se a presença de um lado psicótico do ego,
cindido, parte integrante de qualquer pessoa considerada normal.
Essa realidade interna do ego foi detalhadamente estudada
por algumas filosofias consideradas de cunho místico, como a budista, a
tibetana e a gnóstica. Elas afirmam que o ego é multifacetado, contendo áreas
profundamente inconscientes, que funcionam contra o próprio indivíduo. Dessa
forma, e com base nisso, essas filosofias construíram toda uma didática para a “morte
do ego”, com exercícios meditativos que objetivam o desenvolvimento de estados
alterados de consciência, para assim “viajar” aos recônditos mais profundos da
mente e compreender essas construções psíquicas.
Na psicanálise, parte-se do princípio de que essa parte do
ego é fruto de cisões que aconteceram desde o nascimento, é algo inconsciente, que não reconhecemos em nós, a
princípio.
Bion denominou de “parte psicótica da personalidade” a esse
lado patológico de nós mesmos. Rosenfeld nomeou-a de “gangue narcisista”, pelo
fato desta organização intimidar o restante do ego sadio. B. Joseph chamou-a de
“pseudo-cooperativa”, pois ela faz de tudo para que o indivíduo não tenha
acesso à sua parte doente. Uma observação interessante partiu de J. Steiner,
quando afirmou que mesmo o lado sadio do ego está de acordo com o lado
patológico, havendo entre eles uma relação perversa e viciosa, com a finalidade
de permanecerem inalterados.
David Zimerman usa o termo contra-ego para referir-se a esta
parte patológica da personalidade, considerando-a uma subestrutura intra-ego,
que se organiza, segundo ele, como “uma oposição às partes sadias e verdadeiras
do ego, embora algo frágeis, a partir do princípio de que são essas partes do
ego que levam o sujeito a um estado de sofrimento, desamparo e humilhação”.
Segundo Zimerman, encontram-se no contra-ego os elementos
que provocam o fracasso do processo analítico:
a)
Medo de perder a própria identidade;
b)
Medo da aniquilação, de se desintegrar;
c)
Medo de afrouxar as defesas e submergir na posição
depressiva;
d)
Medo paranoico de mergulhar no desconhecido;
e)
Inveja do sucesso do analista;
f)
Sentimentos de culpa;
g)
Sentimentos de vergonha;
h)
Sentimentos de vulnerabilidade, por conta das
próprias limitações.
O lado doente do ego é multifacético. Compõe-se de distintos
“eus”, cada um com sua característica própria. Vejamos algumas: sabotagem; reclamação,
polêmica e reivindicações constantes, retaliação e mutilação, perversão,
repetição de padrões (crenças arraigadas e nunca questionadas), vitimização,
nivelamento por baixo.
O contra-ego engloba os receios de –novamente – ser enganado,
traído e humilhado, mobilizando recursos defensivos e ofensivos para evitar
isso. Assim, ele sabota oportunidades de crescimento.
Normalmente, esses inimigos internos são tratados como
amigos pela parte sadia do ego, que favorece a construção de barreiras,
bloqueios e toda uma série de defesas para que os conteúdos reprimidos não
venham à tona. É importante que nos conscientizemos dessas condutas prejudiciais,
pois elas são autolimitantes ao extremo, causando-nos atrasos em vários
setores: pessoal, profissional, de relacionamentos, etc.
A auto-observação é um começo muito bom. Através do
desenvolvimento deste recurso psíquico podemos perceber a atuação da parte psicótica
de nós mesmos e passar e entender certos padrões inconscientes sob os quais
funcionamos. Mas, pela profundidade e complexidade do tema, aconselhamos a busca
e orientação de um bom terapeuta.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Mitologia Hindu: Considerações sobre o Inconsciente
Com
base no que encontramos na Filosofia/Mitologia Hindu, concluímos o seguinte:
a) Os
deuses são partes de nós, eternos, imortais, mantendo-se inalterados em nossas
vidas sucessivas ou reencarnações. Deus, ou os Deuses, estão dentro de nós, em
nosso Inconsciente Individual, mas também têm sua expressão fora de nós, no
Inconsciente Coletivo.
b) O
Inconsciente é mais amplo do que possamos imaginar, abarcando muitas dimensões
ou universos paralelos. Possui ordem e lei. Isso é válido tanto para o
Inconsciente Individual como para o Coletivo.
c) O
Inconsciente é habitado por outras expressões, além dos deuses, em padrões de
consciência que desconhecemos. Essas “formas de vida” têm vontade própria e têm
relação com os elementos da natureza: fogo, água terra e ar. Podem ser do “bem”
ou do “mal”, isto é, existem em várias escalas vibracionais.
d) A
energia psíquica não fica circunscrita ao Inconsciente Individual, mas circula
através das mentes, ou do Inconsciente Coletivo. Nossos inconscientes se penetram
e se influenciam mutuamente.
e) A
Filosofia/Mitologia Hindu se mostra prática, colocando à disposição dos
interessados, exercícios psicofísicos para elevação do nível vibratório dos
corpos (afirma que possuímos 6 corpos além do físico, que não os vemos por
estarem situados em outras dimensões) e conseqüente melhoria dos estados de
consciência, possibilitando a percepção de outros planos de existência por
experiência direta.
f) Afirma
que há duas sendas no processo de evolução do ser humano: uma descendente e
outra ascendente. A primeira é de densificação, de experimentação do mais
denso, como um mergulho nas dimensões mais pesadas do universo. A segunda é de
sutilização, de retorno ao princípio criador, destinada àqueles que não querem
mais participar da Roda do Samsara, ou Ciclo de Reencarnações.
Uma
emoção ou um pensamento viaja através do espaço-tempo e afeta, positiva ou
negativamente, outras formas de vida, sejam elas minerais, vegetais, animais,
humanas ou sobrehumanas (deuses ou demônios).
As
mais recentes descobertas da Física Quântica, que leva em consideração o
intercâmbio interdimensional, já era conhecida dos antigos Rishis hindus. Basta
ler os “Yoga-Sutras”, de Patanjali , sob o olhar treinado de Tamni, para ver
isso.
A
Mitologia/Filosofia hindu é completa, como um círculo fechado. É um sistema
psicológico, cósmico, científico, religioso, artístico, sociológico,
fenomenológico, místico, etc. Está tudo lá.
Impressiona
o fato de que são colocadas à disposição do indivíduo, chaves práticas para
alcançar níveis mais profundas de consciência.
A
unidade múltipla perfeita no sistema hindu impressiona, pois se encaixa em
qualquer conceito religioso.
A
Mitologia hindu e sua inseparável filosofia, é profundamente psicanalítica.
Absorve o ser humano e sua conduta, indo além, colocando possibilidades de
evolução ao nível cósmico. Isso porque vê o ser humano de forma
multidimensional, inserido num plano coerente, coletivo ao mesmo tempo (somos
unidades de um corpo maior, como células). A energia sutil (Chi, Prana, Orgone,
ou seja lá como queiramos chamá-la) não fica restrita ao indivíduo e seu
inconsciente, mas viaja pelo espaço-tempo afetando outros seres.
Toda
a Mitologia/Filosofia hindu se baseia na busca de um pensamento ideal, capaz de
levar a planos mais sutis de consciência. Isso significa que é possível
expandir nossa percepção, que é o mesmo que tornar consciente o Inconsciente,
em níveis inimagináveis.
Aqui
cabe explicar ou lembrar a noção do que seja o Inconsciente na Mitologia hindu.
Ele é abrangente, multidimensional e é habitado por várias formas de vida,
desconhecidas para nós, em nosso nível de freqüência vibratória. Nesses
universos paralelos vivem civilizações, povos, sejam humanos ou não. Estão aqui
e agora, só que em outros níveis vibratórios.
Os
mantras são muito úteis para criar ressonância com esses universos. Tudo vibra
no Universo. A vida vibra e a Mitologia/Filosofia hindu, prática como ela só,
nos dá ferramentas maravilhosas para acessar esses outros universos, que estão
dentro de nós e fora de nós.
Como
já dizia Hermes, assim como é abaixo é acima, como é acima é abaixo. Também é
oportuno citar o Templo de Delfos, com sua famosa e significativa expressão:
“Homem, conhece-te a Ti Mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.
Essa
é a psicanálise que o presente e o futuro nos reservam. Acredito que essa
releitura da Mitologia/Filosofia hindu é um dos caminhos que pode nos conduzir
a uma nova etapa da Psicanálise, a um conhecimento mais profundo e amplo do que
seja o Inconsciente e suas possibilidades.
A Trindade Hindu e seu Desdobramento Feminino
BRAHMA,
o Deus Criador, aparece de manto branco, montado num ganso ou num cisne. Possui
quatro cabeças, das quais nasceram os Vedas, que ele leva nas mãos junto com um
cetro e vários outros símbolos. É o Pai Celestial, Criador dos céus e da terra.
Decresceu em importância com a ascensão de Shiva e Vishnu.
SHIVA,
o Destruidor, apresenta-se de várias formas: o extremado asceta; o matador de
demônios envolvido por uma serpente e com uma coroa de crânios na cabeça; o
Senhor da Criação a dançar num círculo de fogo ou o símbolo masculino da
fertilidade. Shiva é a representação do Espírito Santo, no hinduísmo.
VISHNU,
o Conservador, traz em geral quatro símbolos: um disco, um búzio, uma maçã e
uma flor de lótus. Sempre que a humanidade precisa de ajuda, esse deus
benevolente aparece na Terra como um avatara ou reencarnação. É o equivalente
hindu do Cristo.
Da
trindade masculina origina-se uma trindade feminina: Brahma – Sarasvati; Vishnu
– Lakshmi; Shiva – Parvati.
Segundo
a tradição, os aspectos femininos surgiram de um encontro entre Brahma, Vishnu
e Shiva, ocorrido logo após a criação. Desolados, entreolhavam-se os três
quando, de súbito, ali apareceu uma belíssima donzela. Espantados,
perguntaram-lhe de onde viera, e ela respondeu que se originara do fogo contido
nos seus olhares recíprocos. Essa mesma donzela transformou-se, a seguir, em
três, constituindo dessa maneira a trindade feminina.
A
polaridade feminina dos deuses é o receptáculo, o aspecto da natureza
indispensável à manifestação. Convém relembrar, entretanto, que os três
aspectos masculinos e os três femininos são facetas de uma mesma realidade,
una, indivisível, que os transcende, compondo essa realidade básica
representada por Brahman.
Brahma, Shiva e Vishnu são os controladores da natureza material,
e agem basicamente em três formas ou modos (gunas). Quando há criação,
construção, geração, procriação, etc., a natureza material age no modo da
paixão (rajas). Quando há estabilidade, manutenção, preservação,
equilíbrio, sustentação, a natureza material age sob o modo da bondade (satva).
E quando há destruição, dissolução, desgaste, devastação, declínio, etc., a
natureza age sob o modo da ignorância (tamas). Brahma, Shiva e Vishnu
são os “guna-avataras”, ou seja, as encarnações responsáveis, por cada um
desses três modos da natureza material.
BRAHMA
Brahma
é o Criador do Universo. É a Inteligência Criadora, a Mente Cósmica.
Brahma
tem quatro cabeças e está sentado num cisne (Hamsa). Suas quatro cabeças
representam as quatro direções e também os quatro Vedas. Possui um
desdobramento feminino, Sarasvati, sua consorte.
Em
suas quatro mãos, Brahma sustenta um lótus, os Vedas, um vaso contendo amrita e
abhaya mudra. O lótus representa a pureza, os Vedas o conhecimento sagrado, o
amrita é o néctar da imortalidade e abhaya mudra abençoa com destemor.
Brahma é o primeiro deus da Trindade hindu. É considerado a representação da
força criadora. Quando um Universo está
para ser criado, Brahma aparece montado numa flor de lótus que brota do umbigo
de Vishnu e assim recria todo o universo.
No
Brahmananda Purana há uma descrição poética sobre a maneira como Brahma criou o
mundo. É dito, nesta escritura, que Brahma criou e recriou o mundo inúmeras
vezes. Ninguém sabe quantos mundos existiram antes deste, ou quantos virão
depois. O texto fala das quatro Eras ou Yugas, que juntas formam um Kalpa e que
no fim de cada Kalpa a criação é destruída e volta ao seu estado transicional
como um caos aquoso.
Depois,
o texto narra a maneira como os seres foram gerados. Diz o Upanishad que,
enquanto Brahma meditava, nasciam seres da sua mente. Ele assumiu um corpo
feito de escuridão, e do seu reto saiu um vento – assim nasceram os demônios.
Então Brahma descartou este corpo de escuridão e este se tornou a Noite.
Brahma
assumiu um novo corpo, feito basicamente de bondade e luz. Da sua boca saíram
agora os deuses brilhantes, ou devas. Ele descartou esse corpo, que se
transformou no Dia.
Ele
assumiu um terceiro corpo, que era todo feito de satva. Brahma estava tendo
pensamentos ternos sobre pais e filhos, mãe e filhas, e assim nasceram os
espíritos ancestrais. Estes espíritos surgem no crepúsculo e na aurora, quando
Dia e Noite se encontram. Brahma, então, descartou este corpo e assumiu um
quarto, feito de energia emitida pela sua mente. Com esses pensamentos, os
seres humanos, as criaturas pensantes, foram criados. Então, ele descartou esse
corpo, que se transformou na Lua.
Brahma
teve um pensamento muito estranho, enquanto assumia um quinto corpo, feito de
energia e escuridão, o que o levou a emitir criaturas horríveis que queriam
devorar o mar primordial do caos; eram os ogros. Brahma ficou tão perturbado
com esta última criação que todos os cabelos de sua cabeça caíram. Estes
cabelos se transformaram em todas as criaturas que rastejam sobre seus ventres,
as serpentes e outros répteis.
Brahma
ainda estava perturbado com a criação dos ogros e, tomado de pensamentos
tenebrosos, criou os horríveis Gandharvas, ou ghouls (demônios que devoram
cadáveres).
A
essa altura, Brahma havia recuperado sua compostura e começado a ter pensamentos
agradáveis. Sua mente voltou ao tempo feliz e pacífico da sua juventude. Neste
estado de felicidade, os pássaros foram criados. Agora, do corpo de Brahma,
muito mais surgiu: mamíferos, plantas e outras formas de vida.
As
qualidades que todos os seres vivos possuem hoje são o produto dos pensamentos
de Brahma durante a hora de seu nascimento, e essas características
permanecerão constantes enquanto durar o mundo atual.
Depois que Brahma cria o
universo, ele permanece em existência por um dia de Brahma, que vem a ser
aproximadamente 4 320 000 000 (1 Kalpa), de acordo com a cosmogonia hindu.
Quando Brahma vai dormir, ao findar este ciclo, o mundo e tudo que nele existe
começa a se dissolver. Quando ele acorda de novo, ele recria toda a criação, e
assim sucessivamente, até que se completem 100 anos de Brahma (Maha-Kalpa).
Para rever esses dados, consulte a primeira parte deste trabalho, no ítem “Os
Princípios do Dharma, ítem “O Múltiplo”, pags.11 e 12.
Brahma é pouco cultuado na
Índia. Não há muitas lendas a seu respeito, acreditamos que devido à sua
proximidade de Brahman, o incorpóreo, que lhe confere grande abstração. Há
apenas um templo dedicado a ele, no Lago Pushkar, em Ajmer.
SHIVA
Shiva
compõe, com Brahma e Vishnu, a Trindade hindu. É considerado pelos seus adeptos como o aspecto principal da realidade trina.
Umas das muitas lendas a respeito de
Shiva conta que, certa vez, Vishnu e Brahma discutiam a respeito de quem seria
superior ao outro, quando, repentinamente, surgiu entre eles uma coluna de luz.
Os dois suspenderam a disputa e concordaram em pesquisar a origem de tão
estranha aparição. Brahma revestiu-se com a sua forma tradicional de um ganso
(Hamsa) e voou, tal uma flecha, em busca do topo da coluna de luz. Durante mil
anos subiu com a velocidade da um raio de sol até que, sem forças e sem
esperança de encontrar o fim de tão estranha luz, notou que, lá no alto, vinha
descendo e revoluteando caprichosamente, a pequena pétala de uma flor. Ao
passar perto de Brahma, a pétala diz-lhe que vinha caindo há milênios, desde a
época em que se havia desprendido da cabeça de Shiva. Ao ouvir Brahma relatar o
fato, Vishnu tomou a forma de um javali e, imediatamente, com as suas
formidáveis presas, começou a cavar o solo a fim de encontrar a base do pilar.
Tudo em vão. Nesse momento, Shiva manifestou-se materialmente diante de Brahma
e Vishnu, com mil braços e pernas, o sol, a luz e o fogo como seus três olhos,
a cabeça rodeada por uma guirlanda de serpentes. Disse então com voz
retumbante: “Oh, inconscientes, ambos nasceram de
mim! Nós três somo um, embora apareçamos como Brahma, Vishnu e Shiva”.
Ao ouvir isso, conta a tradição, Vishnu e Brahma curvaram-se diante de
Shiva, num culto silencioso que reconhecia sua grandeza.
As
diferentes formas pelas quais Shiva se apresenta chocam muitas vezes as pessoas
menos avisadas. Encontram-se imagens de aspecto sereno, outras de aspecto
atemorizador nas quais esse deus é simbolizado como o poder de destruição da
Natureza. Sob esse ponto de vista, Shiva é considerado o Senhor dos
crematórios, e suas estátuas o apresentam ornado de crânios e coberto pelas
cinzas dos mortos. Sendo o aspecto renovador de Deus, Shiva é representado
dinamicamente e, como tal, o melhor símbolo para representá-lo está contido na
dança. Dançando, Shiva representa a Divindade em sua manifestação; dissolve as
formas antigas, integrando-as no grande Todo, de modo que qualquer coisa de
novo resulte desse esforço contínuo. A
tradição fala de 108 danças executadas por Shiva, que estão representadas no
tempo de Chidambaram, na Índia. Misticamente, Shiva está no fundo de nossos
corações. Lá se desenrola essa dança constante.
Na Mitologia hindu, Shiva é o
renovador ou transformador, que destrói para construir algo novo. Possui várias
representações, sendo “Pashupati” (o Senhor dos Animais) a mais antiga, datando
de cerca de 4.000 anos a.C. Atribui-se a Shiva a criação do Yoga, que é uma
disciplina tântrica.
Shiva também é chamado de Mahadeva
(Deus Supremo), Shankara ( o meditante), Shambhu (o benevolente) e Nataraja (o
dançante).
O tridente que aparece nas muitas
representações de Shiva é o trishula. É com essa arma que ele destrói a
ignorância nos seres humanos. Suas três pontas representam as três qualidades
da matéria: tamas ( inércia), rajas ( movimento) e satva
(equilíbrio).
A serpente em volta da cintura e do
pescoço simboliza que Shiva domina a morte.
No Yoga, a serpente representa a Kundalini, o fogo que reside adormecido
na base da coluna, no Chacra Muladhara. Quando esta energia sexual é
despertada, ela sobe pela coluna, ativando os Chacras e acordando os
hipersentidos, produzindo estado de hiperconsciência.
No topo da cabeça de Shiva se vê um
jorro d'água; é o Rio Ganges (Ganga). Há uma lenda que diz que o Ganges
era um rio muito violento e não podia descer à Terra pois a destruiria com a
força do impacto. Então, os homens pediram a Shiva que ajudasse e ele permitiu
que o rio tão logo saísse do Mundo Espiritual, caísse primeiro sobre sua
cabeça, amortecendo o impacto e depois, mais tranqüílo, corresse pela Terra.
O Lingan, ou Linga,
é o símbolo fálico de Shiva, a energia criadora masculina que está presente na
origem do universo. Na Mitologia hindu, reverenciar o lingan é o mesmo que
adorar a Shiva. A base do lingan representa o Yoni, o útero,
mostrando que a criação se dá com a união do masculino com o feminino.
O tambor representa o som da criação
do universo - OM. É com o som desse
tambor que Shiva marca o ritmo do universo e o compasso de sua dança. Se ele
parar de tocar, todo o universo se desfaz.
Shiva está intimamente associado ao
fogo, pois esse elemento representa a transformação. Shiva nos incita à
transformação por meio do fogo do Yoga.
Shiva, por vezes, aparece montado em
um Touro branco, chamado Nandi. O touro está associado às forças telúricas e à
virilidade. Também representa a força física e a violência. Montar o touro
branco, significa dominar a violência e controlar sua própria força.
Também notamos a presença da Lua, em
algumas imagens de Shiva. A lua representa, além da ciclicidade da natureza, as
emoções e humores, incluindo os inconscientes.
Usar uma lua crescente nos cabelos simboliza que Shiva está além das
emoções, não se afetando por elas. As transformações pelas quais passamos na
vida são necessárias ao nosso aperfeiçoamento e crescimento interior. Querer as
mudanças, aceitá-las e aprender com elas é estar em harmonia com nosso Shiva
interior.
Como Nataraja, Shiva aparece como o rei dos dançarinos.
Ele dança dentro de um círculo de fogo, símbolo da renovação e com sua dança
cria, conserva e destrói o universo. A dança de Shiva é o eterno movimento do
universo. Em uma das mãos, ele segura o tambor em forma de ampulheta com o qual
marca o ritmo cósmico e o fluir do tempo. Na outra, traz uma chama, símbolo da
transformação e da destruição de tudo que é ilusório. As outras duas mãos fazem
mudras (gestos); a direita faz abhaya,
um gesto de proteção e bênção; a
esquerda representa a tromba de um elefante, símbolo da remoção de obstáculos.
Com seu pé direito, pisa sobre as costas do demônio da ignorância interior; o
esquerdo, no ar, representa o equilíbrio e o impulso de ascensão. A base sobre
a qual se sustenta o Shiva Nataraja é uma flor de lótus, símbolo do mundo
manifestado.
Shiva nos convida a vencer a
ignorância interior, a nos transformar, a dominar nossos instintos primários.
Uma de suas representações é Pashupati, o Senhor das Feras. Ali, os quatro
animais ao seu redor são o tigre, o elefante, o rinoceronte e o búfalo. Esses
animais representam o orgulho, a força bruta, o ódio e a sexualidade
desenfreada. Pashupati, então, é também aquele que domou suas feras interiores,
suas emoções e convive sabiamente com elas.
Uma lenda hindu, contida no Shiva
Purana, conta que os deuses estavam em luta com os demônios, e como não estavam
conseguindo vencê-los, foram pedir auxílio a Shiva. Este lhes disse: "Eu sou
o Senhor dos Animais (Pashupati).
Os corajosos titãs só poderão ser vencidos se todos os deuses e outros seres
assumirem sua natureza de animal”. Os deuses hesitaram pois achavam
que isso seria uma humilhação. E Shiva falou novamente: "Não é
uma perda reconhecer seu animal (a espécie que corresponde no mundo animal ao
princípio que cada deus encarna no plano universal). Apenas aqueles que
praticam os ritos dos irmãos dos animais (Pashupatas) podem ultrapassar sua
animalidade." Assim, todos os deuses e titãs reconheceram que
eram o rebanho do Senhor e que ele é conhecido pelo nome de Pashupati, O Senhor
dos animais.
A
função do nosso Shiva interior é matar o que não serve mais à nossa evolução e
renascer para um novo ciclo de consciência. O processo cósmico é a morte e a ressurreição, a eterna renovação da
vida.
As cinco atividades divinas de Shiva são:
- a criação contínua do universo,
originada no ritmo;
- a conservação baseada no equilíbrio e
na medida dos movimentos;
- a destruição das formas já superadas,
mediante o fogo interior;
- a eterna renovação;
- a encarnação da vida.
VISHNU
Vishnu
representa a bondade, e é responsável pela sustentação, proteção, e manutenção
do universo. Ele está presente em cada átomo da criação, bem como no coração de
todos os seres.
A palavra Vishnu significa "aquele que tudo penetra", ou "aquele que tudo impregna".
Vishnu,
em pé, sobre um lótus ou uma serpente, representa o sábio indicando a busca do
conhecimento. Possui quatro braços, tendo em cada mão um lótus (o conhecimento
que sustenta a pureza da mente), um disco (a destruição da ignorância e dos
apegos), uma concha (a origem da existência, os cinco elementos) e uma arma, a
massa (o poder do conhecimento, o poder do tempo).
Enquanto a ordem prevalece no universo, Vishnu
dorme. O universo surge do sonho de Vishnu. Mas quando há desequilíbrio no
universo, Vishnu se utiliza de seu veículo, Garuda, e guerreia com as forças do
caos, ou ele envia um de seus avatares (ou encarnações) para salvar o mundo.
Vishnu é o Logos manifestado, o Cristo, o Deus que encarna em forma humana a fim de se tornar um Salvador de almas.
Vishnu é o Logos manifestado, o Cristo, o Deus que encarna em forma humana a fim de se tornar um Salvador de almas.
Segundo
a tradição, Vishnu se reencarna periodicamente entre os homens como um Avatar.
A figura de avatar indica que os hindus têm bem presente a necessidade de uma
comunicação especial para cada estágio da evolução humana. Segundo a teoria dos
Avatares, Vishnu já desceu à terra nove vezes,
faltando uma para completar suas dez encarnações.
Na
tradição hindu relatada nos Puranas, o tempo é dividido em Yugas (Eras). A Yuga
é um ciclo com duração determinada que corresponde à tradição das Idades
existentes no Ocidente. A primeira é Krita e está relacionada à Idade de Ouro,
uma época em que a Lei Divina é perfeitamente respeitada pelos homens, portanto
não há doenças, ódios ou guerras. A segunda Yuga denomina-se Treta e
corresponde à Idade de Prata. Nela começam as doenças, os ódios e as lutas. A
terceira Yuga é a Dvapara, Idade de Bronze, onde os valores espirituais decaem
ainda mais. Por fim, temos a quarta Yuga, chamada Kali, também conhecida como
Idade de Ferro, sendo o pior período da humanidade, em termos de cumprimento da
Lei Divina.
Vishnu,
como segundo aspecto divino, encarna periodicamente nessas Yugas a fim de
auxiliar a manifestação. A tradição aponta as seguintes encarnações de Vishnu:
Matsya:
Veio
em forma de peixe, quando um dilúvio cobriu quase todos os lugares da Terra.
Dos seres humanos só restou Manu. Certa ocasião, quando Manu fazia suas
abluções, um pequeno peixe disse-lhe: “Eu te salvarei!” E
aconselhou Manu a construir um grande barco e não temer a inundação que se
aproximava. Quando a inundação aconteceu o peixe conduziu o barco a um local
seguro. Matsya, o peixe, salvara o sétimo Manu, o pai da raça humana.
Kurma:
Vishnu
veio, na segunda vez, na forma de uma tartaruga, com a finalidade de levantar a
terra, que se encontrava submersa pelo dilúvio. Ela se colocou no fundo do
oceano e das suas costas elevou-se a montanha Mandara.
Varaha:
É o
javali, que com sua imensa força eleva as terras acima das águas.
Narasinha:
O
avatar agora é um ser meio homem, meio leão, simbolizando o estágio
semi-selvagem que o homem vivia. Esse homem primitivo, que ainda recentemente
povoava a face da Terra, não teria capacidade de compreender a mensagem divina
em sua pureza total. O instrutor, portanto, aparecia sob uma forma capaz de
sensibilizar o coração dos seres humanos da época.
Vamana:
O
anão. Simboliza a perda de estatura física e psicológica dessas raças
primitivas. Apesar disso, Vishnu está presente para auxiliar a raça humana.
Todos os cinco avatares descritos aparecem na primeira Yuga.
Parasurama:
É o
primeiro avatar da Treta Yuga.
Rama:
É o
personagem herói, filho do rei Dasaratha, de Ayodhya, cujas aventuras estão
relatadas no Ramayana, que se desenvolve em pleno Dvapara Yuga.
Krishna:
Este
é o avatar cuja morte se dá no início da Kali Yuga, havendo muitas semelhanças
com a vida de Jesus, o Cristo. Note-se que Krishna é anterior a Jesus.
Buddha:
O
príncipe Sidarta, da Corte dos Sakyas, que abandona todas as riquezas para se
tornar iluminado.
Kalki:
É o
avatar que virá no fim da Kali Yuga, anunciando o fim do ciclo.
domingo, 28 de setembro de 2014
Artemidoro e a Interpretação de Sonhos (sec.II)
Artemidoro viveu no século II. Nasceu em Éfeso, Ásia Menor,
e dedicou sua vida à onirocrisia (arte de interpretar sonhos). Escreveu, entre
outros, um livro intitulado “A Chave dos
Sonhos”, onde ensina os fundamentos dessa arte, pois ele acreditava que
qualquer pessoa, homem ou mulher, não importando idade, posição social,
profissão, deveria valorizar e entender o simbolismo das suas imagens oníricas.
Artemidoro fala de dois tipos de sonhos:
1)
Enupnia: que traduzem o estado atual do
indivíduo, seja em nível físico ou psíquico. São sonhos que trabalham do
presente para o presente. Ex: se está com fome, sonha com comida; se sente
medo, sonha com a situação onde esse medo ressalta; se está apaixonado, sonha
com a pessoa amada, etc.
2)
Oneiron: são os sonhos premonitórios, que
representam uma mensagem do Ser (Self), sobre acontecimentos da vida pessoal,
passíveis de acontecerem de fato num futuro mais ou menos próximo. Esses sonhos
são que tem o potencial de modificar a pessoa, contribuindo para sua jornada
interior.
Tanto num quanto noutro, há sonhos que são muito claros, com
a mensagem objetiva, e outros que requerem uma decifração de seus elementos. Artemidoro classifica como teoremáticos os sonhos óbvios em
que a imagem traduz aquilo que é, sem sentidos ocultos. Denominou, por sua vez,
de alegóricos àqueles que são simbólicos, exigindo uma interpretação.
A questão que se levanta: como saber quando o sonho é
teoremático ou alegórico? Segundo Artemidoro é preciso interrogar o sonhador.
Portanto, um diálogo é necessário para entender as predisposições da pessoa.
Percebemos, sem demora, que estamos diante de um
psicanalista do século II. Ele afirma que quanto mais simples e inocente uma
pessoa for, mais objetivos e concretos são seus sonhos. Já aquelas pessoas mais
experientes, com uma mente carregada de conhecimentos, são mais propensas aos
sonhos onde o desejo reprimido se oculta em representações do objeto. Ele cita
um exemplo: Um certo habitante de Corinto, uma alma versada, via em sonho o desabamento
do teto de sua casa e sua própria decapitação. Artemidoro, após análise acurada,
chegou à conclusão de que se tratava de um sonho alegórico – o indivíduo em
questão desejava a morte de seu mestre.
Mas, e quando o sonho é, de fato, premonitório, isto é,
anuncia um acontecimento futuro? Bem, mesmo que haja elementos simbólicos
encobrindo a real natureza da mensagem, o tempo se encarrega de corroborar o
sonho, dando lugar aos acontecimentos previstos no sonho.
Para Artemidoro, o trabalho de interpretação dos sonhos tem
lugar especial nas experiências oníricas de pessoas comuns, com ou sem
instrução e cultura, sendo os sonhos premonitórios, ou de acontecimentos, os
mais importantes. Nestes sonhos não há transparência, pois uma imagem é usada
para dar significado a outra, e, além disso, resultará num acontecimento
futuro.
Que método Artemidoro utiliza? O da analogia. Para ele a
arte de interpretar sonhos reside sobre a Lei da Semelhança. Ele trata dessa
analogia em dois planos:
a)
Analogia de Natureza: considera a imagem do
sonho e os elementos do futuro que ele anuncia. Aqui se observa várias
situações envolvendo identidade qualitativa, identidade da palavra, parentesco
simbólico, crença num mito, categoria de existência, semelhança de prática.
Exemplos: sonhar com lama pode significar que o corpo está repleto de
substâncias nocivas; sonhar com um mal-estar pode significar o futuro da saúde
ou da fortuna; sonhar com um leão pode significar vitória em um assunto
importante; sonhar com casamento pode significar morte ou viuvez; um doente
sonhar que está casando com uma virgem pode indicar sua morte iminente.
b)
Analogia de Valor: tem por finalidade determinar
se os acontecimentos que ocorrerão serão favoráveis ou não. Artemidoro propôs
seis critérios para esta análise. O ato representado é conforme: 1) à natureza?;
2) à lei?; 3) aos costumes?; 4) às regras e práticas e possibilitam a uma ação
atingir seus objetivos?; 5) ao tempo?; 6) quanto ao seu nome?
Artemidoro, contudo, diz que o princípio da semelhança não é
universal e que pode haver exceções, uma inversão de valores, isto é, certos
sonhos “bons por dentro” podem ser “maus por fora” e vice-versa. Assim, ele
também coloca a possibilidade da analogia dos contrários: o ato imaginado no
sonho resulta em um acontecimento oposto no estado de vigília.
Há, portanto, em torno dos signos e significados, positivos
ou negativos, toda uma gama de possibilidades. Toda essa complexidade exige que
se leve em conta todos os aspectos do sonho, assim como a análise da pessoa do
sonhador.
Na arte de interpretação onírica de Artemidoro o significado
é fortemente marcado pela divisão entre bom/mau, feliz/infeliz, moral/imoral,
fasto/nefasto, afinal, ele é filho do seu tempo e das características que
predominavam na cultura em que viveu e se desenvolveu. Toda a obra está
impregnada de uma ética do sujeito que ainda existia em sua época; e suas
interpretações, com certeza, se encaixavam naquela realidade.
***
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
As Quatro Fases do Perdão (por Clarissa Estés)
A Prisão da Raiva Antiga
Se e quando a raiva se transforma numa represa para o
pensamento e a ação criativa, ela precisa ser abrandada ou modificada. Para
quem passou bastante tempo elaborando algum trauma, quer ele tenha sido provocado
pela crueldade, negligência, falta de respeito, falta de responsabilidade,
arrogância ou ignorância de alguém, quer por obra do destino, um dia chega a
hora de perdoar a fim de liberar a psique para que ela volte a um estado normal
de calma e paz.
Quando a mulher enfrenta dificuldades para se livrar da
raiva ou da fúria, muitas vezes é porque ela está usando a raiva para ganhar
forças. Embora a princípio essa possa ter sido uma decisão sábia, com o tempo
ela precisa ter cuidado, pois a raiva constante é um fogo que queima sua
própria energia vital. Encontrar-se nesse estado é como voar pela vida com o
“pé na tábua”; como tentar levar uma vida equilibrada com o pé no acelerador
até o fundo. O ímpeto da fúria não deve ser considerado um substituto da vida
cheia de paixão. Não é a vida na sua melhor forma. Trata-se de uma defesa cuja
manutenção é muito cara, depois de passada a necessidade da sua proteção. Após
algum tempo, ela arde incessantemente, polui nossas ideias com sua fumaça negra
e prejudica outras formas de visão e de percepção.
Não vou, porém, lhe dizer a mentira deslavada de que você
tem condições de eliminar toda a sua fúria hoje ou na semana que vem, e que
estará livre dela para sempre. A angústia e o tormento de tempos passados
costumam surgir na psique numa frequência cíclica. Embora um expurgo profundo
elimine a maior parte da dor e da fúria, nunca se consegue varrer completamente
todo o resíduo. Ele deveria, no entanto, deixar cinzas bem leves, não um fogo
voraz. Por isso, a limpeza da fúria residual precisa se tornar um ritual de
higiene periódica, um ritual que nos libera, pois carregar a raiva antiga além
do ponto de sua utilidade equivale a carregar uma ansiedade constante, mesmo
que inconsciente.
Às vezes as pessoas se confundem e pensam que estar presa a
uma raiva ultrapassada significa queixas e enfurecimentos, acessos de raiva e
de atirar coisas. Na maioria dos casos, não é assim que funciona. Estar presa
significa estar cansada o tempo todo, ter uma grossa camada de cinismo, destruir
a esperança, frustrar o novo, o promissor. Significa ter medo de perder antes
de abrir a boca. Significa chegar ao ponto de ebulição por dentro, deixando
transparecer ou não. Significa amargos silêncios defensivos. Significa
sentir-se desamparada. Existe, porém, uma saída, e é através do perdão.
“Ora, através do perdão?” você dirá num tom de repúdio.
Qualquer coisa menos isso? No fundo, você sabe que um dia tudo se resumirá a
isso. Pode ser que isso só chegue no seu leito de morte, mas chegará. Pense no
seguinte: muitas pessoas têm dificuldades com o perdão porque lhes ensinaram
que ele é um ato único a ser concluído de uma vez. Isso não é correto. O perdão
tem muitas camadas, muitas estações. Na nossa cultura existe a ideia de que o
perdão é absoluto. Tudo ou nada. Também nos ensinaram que perdoar significa
fechar os olhos, agir como se algo não tivesse ocorrido. Isso também não é
verdade.
A mulher que conseguiu atingir 95% de perdão de alguém ou de
algum acontecimento trágico e danoso está praticamente qualificada para a
beatificação, se não para a santidade. Se ela sentir uns 75% de perdão e 25% de
“não sei se vou um dia conseguir perdoar totalmente, e nem sei se quero isso”,
estará mais próxima do normal. No entanto, 60% de perdão acompanhados de 40% de
“não sei, não tenho certeza e ainda estou pensando nisso”, já são uma atitude
decididamente satisfatória. Um nível de perdão de 50% ou menos pode ser
considerado como esforço em andamento. Menos de 10%? Ou você está apenas
começando, ou ainda não está se esforçando.
Seja como for, quando tiver passado um pouco da metade do
caminho, o resto virá com o tempo, geralmente em pequenos aumentos graduais. O
aspecto mais importante do perdão consiste em começar e persistir. A conclusão
do processo é trabalho para toda a vida. Você dispõe do resto de sua vida para
trabalhar nos percentuais residuais. Na realidade, se pudéssemos entender tudo,
tudo poderia ser perdoado. Para a maioria das pessoas, porém, é preciso muito
tempo no banho alquímico para chegar a esse ponto. E está certo. Nós dispomos
da cura e, por isso, temos a paciência para acompanhar o processo.
Algumas pessoas, graças ao seu temperamento inato, têm maior
facilidade para perdoar do que outras. Para alguns, trata-se de um dom; para a
maioria, trata-se de uma técnica a ser aprendida. A sensibilidade e a
vitalidade essencial parecem afetar a capacidade de dar pouca importância às
coisas. A sensibilidade e a vitalidade essencial parecem afetar a capacidade de
dar pouca importância às coisas. A sensibilidade e a vitalidade intensa nem
sempre permitem que injustiças sejam ignoradas com facilidade. O fato de você
não perdoar facilmente não quer dizer que você seja má. Você também não é santa
só por perdoar facilmente. Cada coisa a seu tempo.
Para uma cura real, porém, precisamos dizer a nossa verdade,
e não só a nossa dor e nosso lamento, mas também o mal que foi causado, a raiva
e revolta e o desejo de autopunição ou de vingança que foi evocado em nós. A
velha curandeira da psique compreende a natureza humana com todas as suas
fraquezas e concede o perdão com base no relato da verdade nua e crua. Ela não
dá apenas uma segunda chance. Na maior parte das vezes ela dá muitas chances.
Examinemos os quatro níveis de perdão que venho usando no
meu trabalho com pessoas traumatizadas ao longo dos anos. Cada nível tem
algumas camadas. Pode-se lidar com eles em qualquer ordem e pelo tempo que se
deseje, mas a seguir eles estão relacionados na ordem que sugiro a minhas
clientes.
Os Quatro Estágios do Perdão
1.
Deixar passar- deixar a questão em paz
2.
Controlar-se – renunciar à punição
3.
Esquecer – afastar da memória, recusar-se a
repisar
4.
Perdoar – o abandono da dívida
DEIXAR PASSAR
Para se começar a perdoar, é bom deixar passar algum tempo.
Ou seja, é bom deixar de pensar provisoriamente na pessoa ou no acontecimento.
Não se trata de deixar algo por fazer, mas assemelha-se a tirar umas férias do
assunto. Isso ajuda a evitar que fiquemos exaustas, permite que nos
fortaleçamos por outros meios, que tenhamos outras alegrias na vida.
Este estágio é um bom treino para o abandono definitivo que
mais adiante advirá do perdão. Deixe a situação, a recordação, o assunto,
tantas vezes quantas for necessário. A ideia não é a de fechar os olhos, mas a
de adquirir agilidade e força para se desligar da questão. Deixar passar
envolve voltar a tecer, a escrever, ir até o mar, aprender a amar algo que a
fortaleça e deixar que o tema saia do primeiro plano por algum tempo. Isso é
bom e é medicinal. As questões de danos passados irão atormentar a mulher muito
menos se ela garantir à psique ferida que lhe aplicará bálsamos medicinais
agora e que mais tarde tratará do assunto de quem provocou tal ferida.
CONTROLAR-SE
A segunda fase é a do controle, especificamente no sentido
de abster-se de punir; de não pensar no fato nem reagir a ele seja com termos
grandes, seja em termos pequenos. É de extrema utilidade a prática desse tipo
de refreamento, pois ele aglutina a questão num único ponto, em vez de permitir
que ela se espalhe por toda a parte. Essa atitude concentra a atenção para a
hora em que a pessoa se dirigir aos próximos passos. Ela não quer dizer que a
pessoa deva ficar cega, entorpecida ou que perca sua vigilância protetora. Ela
pretende conferir um prazo à situação para ver como isso ajuda.
Controlar-se significa ter paciência, resistir, canalizar a
emoção. Esses são medicamentos poderosos. Faça tanto quanto puder. Esse é um
regime de purificação. Você não precisa fazer tudo; você pode escolher um
aspecto, como o da paciência, e praticá-lo. Você pode se abster de palavras, de
resmungos punitivos, de agir de modo hostil, ressentido. Ao evitar punições desnecessárias,
você estará reforçando a integridade da alma e da ação. Controlar-se é praticar
a generosidade, permitindo, assim, que a grande natureza compassiva participe
de questões que anteriormente geravam emoções que iam desde a ínfima irritação
até a fúria.
ESQUECER
Esquecer significa afastar da lembrança, recursar-se a
repisar um assunto – em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente
da memória. Esquecer não quer dizer entorpecer o cérebro. O esquecimento
consciente consiste em deixar de lado o acontecimento, não insistir para que
ele permaneça no primeiro plano, mas permitir que ele seja relegado ao plano de
fundo ou mesmo que saia do palco.
Praticamos o esquecimento quando nos recusamos a invocar o
material inflamável, quando nos recusamos a mergulhar em recordações. Esquecer
é uma atividade, não uma atividade passiva. Significa não trazer certos
materiais até a superfície, nem revirá-los constantemente, nem se irritar com
pensamentos, imagens ou emoções repetitivas. O esquecimento consciente
significa a determinação de abandonar a prática obsessiva, de ultrapassar a
situação e perde-la de vista, sem olhar para trás, vivendo, portanto, numa nova
paisagem, criando vida e experiências novas em que pensar no lugar das antigas.
Esse tipo de esquecimento não apaga a memória; ele simplesmente enterra as
emoções que cercavam a memória.
PERDOAR
Existem muitos meios e proporções com os quais se perdoa uma
pessoa, uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um
perdão “final” não é uma capitulação. É uma decisão consciente de deixar de
abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da
determinação de retaliar. É você quem decide quando perdoar e o ritual a ser
usado para assinalar esse evento. É você quem resolve qual é a dúvida que você
agora afirma não precisar mais ser paga.
Algumas pessoas optam pelo perdão total, liberando a pessoa
de qualquer tipo de reparação para sempre. Outras preferem interromper a
reparação ao meio, abandonando a dívida, alegando que o que está feito está feito
e que a compensação já é suficiente. Outro tipo de perdão consiste em isentar a
pessoa sem que ela tenha feito qualquer reparação emocional ou de outra
natureza.
Para certas pessoas, finalizar o perdão significa considerar
o outro com indulgência, e isso é mais fácil quando as ofensas são
relativamente leves. Uma das formas mais profundas de perdão está em dar ajuda
compassiva ao ofensor por um ou outro meio. Isso não quer dizer que você deva
enfiar a cabeça no ninho da cobra, mas, sim, ser sensível a partir de uma
postura de compaixão, segurança e preparo.
O perdão é onde vão culminar toda a abstenção, o controle e
o esquecimento. Não significa abdicar da própria proteção, mas da própria
frieza. Uma forma profunda de perdão consiste em deixar de excluir o outro, o
que significa deixar de mantê-lo a distância, de ignorá-lo, de agir com frieza,
condescendência e falsidade. É melhor para a psique da alma restringir ao
máximo o tempo de exposição às pessoas que são difíceis para você do que agir
como um robô insensível.
O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre
muitas formas de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que,
perdoar até a próxima vez, perdoar mas não dar outra chance – começa tudo de
novo se acontecer outro incidente. Você pode dar só mais uma chance, dar
chances só se... Você pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou
totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente. Você decide.
Como a mulher sabe que perdoou? Você passa a sentir tristeza
a respeito da circunstância, em vez de raiva. Você passa a sentir pena da
pessoa em vez de irritação. Você passa a não se lembrar de mais nada a dizer a
respeito daquilo tudo. Você compreende o sofrimento que provocou a ofensa. Você
prefere se manter fora daquele meio. Você não espera por nada. Você não quer
nada. Não há no seu tornozelo nenhuma armadilha de laço que se estende desde lá
longe até aqui. Você está livre para ir e vir. Pode ser que tudo não tenha
acabado em “viveram felizes para sempre”, mas sem a menor dúvida existe de hoje
em diante um novo “Era uma vez” à sua espera.
Clarissa P. Estés (Mulheres que Correm com os Lobos)
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