quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Mandalas


Mandalas

Mandalas são círculos nos quais a divindade principal é colocada no centro, e as outras em camadas. São uma superfície consagrada, protetora, contra determinadas invasões. São um mapa do mundo. Psicologicamente, conforme tão bem estudadas por Jung, correspondem aos elementos estruturais que compõem a personalidade humana, centrados no indivíduo, que ocupa o centro da figura.

A mandala se apresenta, por vezes, na forma de Yantras, desenhos geométricos entrelaçados que, em sua simetria parecem brotar de um ponto central. Esses desenhos são usados em certas práticas de meditação.

É indiscutível a força integradora que se sente na Mandala, o que levou Jung a estudá-las em detalhe. Ela aparece nos momentos em que o ser humano é submetido a uma tensão desagregadora. Surge nas crianças que vêem os pais se separarem, nos adultos quando a neurose se estabelece ou sempre que ocorre uma invasão do inconsciente na alma humana. É uma tentativa de autocura que a Natureza espontaneamente adota. Uma barreira à desintegração.

A filosofia hindu, ou qualquer outro sistema por ela influenciado, é um método para alcançar a autoconsciência. Para isso a Sadhana (prática) é indispensável. No trabalho psicanalítico sabemos que a cisão entre o intelecto e a psique é algo grave e precisa ser reparada. É necessário, pois, restabelecer essa autoconsciência do ego, isolado da Consciência Cósmica. Para a Vedanta, essa Consciência Cósmica é Brahman. A centelha individual, o ego, é Atman. Atman=Brahman. Mas, essa identidade não é consciente no homem comum, e quanto mais inconsciente ele for dessa realidade, maior a tensão existencial, a angústia. A prática (Sadhana) é o método que leva ao reencontro dessa consciência.

A Consciência Cósmica é uma superconsciência da qual o inconsciente coletivo de Jung é apenas um aspecto. Nela estamos mergulhados, existimos e temos o ser. A consciência relativa cria as imagens em função da limitação da percepção do Absoluto através dos sentidos. Neste Oceano Primordial nada é perdido.

Os hindus não consideram a vida como sendo uma luta entre o bem e o mal, entre a virtude e o pecado, mas como uma oposição entre aquela consciência luminosa e seu oposto. A psique e o inconsciente, que chamam de Maya, são os dois pólos desse processo que se chama vida. Sendo assim, estamos diante de uma constante intromissão dessa Maya. Estamos, mais ou menos, sob o seu controle.

A mandala é um recurso gráfico, externo, para conduzir à reintegração. É como se fosse um mapa do Universo mostrando a sua geografia externa e interna. Quando examinamos o Universo, o Sol, a Terra, ou o ser humano notamos uma grande semelhança. Existe sempre uma superfície externa, limite, um centro de atração que congrega em verdadeiras camadas as partes componentes. E se assim não fosse, as coisas explodiriam e não teriam forma. A forma é a marca externa de uma Mandala. Assim como existe a forma para o físico, há um contexto para o psicológico. Uma idéia é uma Mandala quando perfeitamente definida. Um sistema de pensamento é uma Mandala, pois possui uma estrutura, um conjunto. A mandala, mesmo que não a notemos, é implícita e realizável. Suas infinitas possibilidades de realização estão mergulhadas nas profundezas do Inconsciente. A Mandala é, portanto, um Cosmograma, e um Psicograma. Um roteiro para o Absoluto.

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Mantras e sua Utilidade para a Psicanálise

Mantras

O mantra é a própria razão de ser de muitas práticas tântricas. A palavra mantra origina-se de uma antiga raiz sânscrita, man, que significa pensar, e o sufixo tra, que significa instrumento. O mantra é um conjunto de sons ou palavras com efeitos vibratórios, psíquicos e espirituais, quando devidamente pronunciados.

De acordo com o Tantrismo, cada coisa, seja qual for sua constituição, nada mais é que uma concentração de energia, uma vibração. Toda vibração de um objeto produz uma modificação, que poderá ou não ser apreendida pelo homem.

Nos hinos do Rig-Veda, os Mantras eram apresentados como instrumentos etéricos para o homem atingir a integração da consciência humana com a consciência cósmica. Segundo os Rishis (sábios), os Mantras impregnam o éter supremo e imperecível, onde os deuses estão presentes. A linguagem humana, nascida da utilização da voz, é a manifestação, no físico, de uma tensão psicológica gerada num plano mais sutil; o mental. Portanto, falar gera libertação de tensões. Existem duas maneiras de falar. Uma, a mecânica, à maneira dos seres, na qual a linguagem nada mais é do que o resultado de um processo “digestivo” mental. As palavras nada mais são do que conceitos mal digeridos que irão, por sua vez, ser absorvidos pelos outros para, incorporando-se em suas naturezas nervosas, serem novamente expelidos e permitir a continuação do processo. E com ele todas as infecções psíquicas causadas pelas contaminações decorrentes da falta de higiene dos que são obrigados a viver no meio do esgoto para onde fluem os subprodutos da mente humana. A outra forma é a que se encontra na linguagem intencional nascida de uma experiência em primeira mão da realidade. É a palavra correta, não contaminada, que brota do aqui e agora. Essa palavra não contamina, mas cura.

Os Mantras servem para várias finalidades. Vejamos algumas relacionadas aos objetivos da psicanálise:

a)    Libertação secundária: refere-se ao alívio de um peso ou de alguma coisa que nos aperta até a cura de uma neurose, quando é atingido aquilo que convencionalmente chamamos de “saúde psíquica”.

b)    Evitar a má influência: O homem pode vestir uma couraça protetora, uma barreira contra a contaminação psíquica, de imensa utilidade num mundo dito desenvolvido e civilizado, mas que continua desconhecendo as regras básicas da higiene hiperfísica.

c)    Exorcizar os demônios: Em primeiro lugar, temos que situar devidamente o que seja demônio no mundo tântrico. São nuvens de força imensa atraídas pelos seres de acordo com o seu estado interior (seus pensamentos e sentimentos naquele momento). A neurose, no conceito tântrico, é a posse do paciente por um conteúdo psíquico que o infecta e destrói a sua paz. A remoção da causa, a conscientização da mesma através de várias técnicas é o verdadeiro exorcismo. Numa de suas obras, o Dr. Jung chama a atenção para a influência através do inconsciente coletivo de certas vibrações advindas de pessoas desajustadas. No Volume 9, de um ensaio intitulado “Concerning Rebirth”, ele afirma: “Grande aglomerações de pessoas são sempre um campo propício para epidemias psíquicas”. No Volume 17 do “The Development of Personality”, Jung relata: “As doenças psíquicas e nervosas das crianças dependem enormemente das perturbações no mundo psíquico dos pais. Todas as dificuldades dos pais refletem-se, sem falhar, na psique da criança”.

d)    Curar doenças: A doença é uma quebra de ritmos. Uma dissonância na harmonia natural do funcionamento do sistema psicofísico. Está definitivamente provada a íntima relação entre corpo e espírito, e a forma pela qual muitas doenças físicas aparecem depois de um período de incubação no psíquico. Nesse caso, a cura é a reconstituição dos tecidos psíquicos e poderá ser acelerada pelo uso adequado do som.

e)    Influenciar as ações e pensamentos dos outros: Podemos, segundo o Tantra, mediante a repetição adequada do Mantra, auxiliar os outros. Um Mantra é um som, uma vibração. Toda vibração tem uma forma, uma estrutura, um ritmo. É um campo vibratório que atua diretamente sobre os que estão em contato direto com ele. A mãe que acalenta o filho está, na sua espontaneidade, emitindo um Mantra que produz resultados marcados. Há uma série de fórmulas mântricas usadas com essa intenção. Esse material pode ser encontrado em obras de Mantra-Yoga.

f)     Purificação do corpo humano: A idéia de limpeza e higiene é muito antiga na Índia. Os banhos, o fogo, os incensos, os mantras são recursos para essa higiene do sutil. Antes de certos rituais, o homem tem que se submeter a um processo de assepsia. O Mantra é uma espécie de detergente interno para a remoção da escória acumulada pela vida afora, ou mesmo de outras encarnações.

A eficiência do Mantra não é uma questão de teoria. É um segredo que se revela ao coração do homem e que depende de cada um de nós comprovar. Seria de muita utilidade na clínica psicanalítica, o uso de mantras, tanto pelo terapeuta como pelo analisando, de acordo com a necessidade que a terapia apresentar.

Na Mitologia Hindu, cada deus possui seu mantra. Significa dizer que se queremos uma conexão com partes mais sublimes de nosso Inconsciente, podemos acessá-las usando os mantras correspondentes.

O Mantra atua tanto no próprio emissor como nos receptores que tiveram possibilidades de com ele entrar em ressonância. Mesmo aqueles que não ressoam, que não são autoconscientes, são beneficiados, assim como toda a coletividade. 

 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Transformando as Representações Mentais


  
                                               TRANSFORMANDO AS REPRESENTAÇÕES MENTAIS

Já faz algum tempo que gostaria de escrever sobre o interessante tema da transformação das impressões mentais.

Outro dia, depois de assistir ao filme “A Caça”, pensei: “É uma boa hora!” Este filme conta a história de um professor que foi injustamente acusado de pedofilia e teve sua vida destruída por causa do julgamento precipitado da comunidade em que vivia: perdeu o emprego, os amigos, o respeito de alguns familiares, a namorada, sofreu muitas humilhações e mesmo agressões morais e físicas, chegou até a ser preso (mas liberado por falta de provas). Ao final, mesmo com a verdade vindo à tona, e a comunidade aceitando-o de volta, ele ficou profundamente marcado por aquela experiência. Nunca mais foi o mesmo, apesar da aparência de normalidade. De fato, não dá para ser a mesma pessoa depois de algo assim, nem ver seus antigos “amigos/agressores” da mesma maneira.

De um lado, as pessoas da comunidade mudaram a representação mental que tinham dele, a partir do momento que aceitaram as fofocas como verdade. De um dia para outro, ele, que era um respeitável membro da comunidade, tornou-se execrável, sendo hostilizado pela quase totalidade das pessoas, dos amigos, dos familiares.

O filme permite muitas reflexões, mas gostaria de ficar neste tópico, pois a vida se processa assim, e isso qualquer um de nós percebe: hoje temos uma impressão, seja das situações ou das pessoas, e isso pode mudar a qualquer momento, de uma hora para outra.  Onde reside a mudança? Em nosso interior, nas representações mentais.

Só para esclarecer: representações mentais são a imagem mental ou as impressões, acompanhadas de um conceito, que temos de situações e pessoas. A todo momento recebemos impressões. Retemos de 2% a 3% delas, na forma de percepções conscientes; as demais são percebidas inconscientemente.

Existem diferentes vias para que isso aconteça, e em várias oitavas também. O mais comum são as situações do diário viver. Na interação social, através do que chamamos “experiências da vida”, vamos alterando essas impressões. Através dos ciclos de idades vamos modificando nossa visão do mundo, como um processo natural de amadurecimento psicológico.  Pela maneira como percebemos os fenômenos da vida, vamos construindo nossos valores. Sabemos que há uma herança que trazemos de nossos antepassados, predisposições que são reforçadas a cada geração. Acresce-se a elas o resultado do meio ambiente, da educação que recebemos, da maneira que somos tratados no meio familiar. Tudo isso deixa “marcas” em nosso psiquismo, uma base sobre a qual nossa vida se desenrola.

Esse conjunto de percepções podemos chamar de crenças, conceitos, preconceitos,  juízos, idéias, etc. São os valores plantados em nós no meio familiar e social. Nenhum de nós escapa de ter tais representações. As comunidades, tribos, etc., se baseiam em tais valores.

Somente depois de uma certa idade (normalmente a partir da adolescência) é que começamos a questionar essa base de valores. Quanto mais equipado for o nosso aparelho psíquico, melhor será nosso potencial de questionamento, de reavaliação e principalmente nosso potencial para lidar com a realidade, aqui e agora.

Assim, vemos que as representações mentais podem ser trabalhadas em duas frentes:

1)      Revendo as impressões cristalizadas, fruto de nosso passado coletivo: crenças, conceitos, preconceitos, valores morais, princípios de vida, aquilo que acreditamos ser a verdade.

2)      Atentando para as impressões que nos chegam a todo momento, a cada instante.

Então, duas necessidades se colocam:

1)      Viver no “aqui e agora”;

2)      Limpar nosso mundo mental de impressões cristalizadas.

Na convivência social não podemos nos desconectar de nossas origens, pois elas nos definem. O que podemos, sim, é questionar até que ponto essa estrutura cristalizada é óbice para nossa evolução como seres humanos. Podemos quebrar a rigidez dos conceitos e permitir mutações em nossa maneira de pensar, criando um movimento nessas estruturas mentais.

Por vezes, uma maneira de pensar já está ultrapassada e se não vemos isso por nós mesmos, a “vida” se encarrega de faze-lo, colocando-nos em situações de confronto. A finalidade é nos levar a uma mudança de mentalidade, uma transformação das representações.

Há valores eternos e há valores temporais. As experiências da vida tendem ao reforço dos valores eternos e à revisão dos valores temporais. Todos que padecem na vida acabam por se render à humildade, solidariedade, respeito, e tantos outros valores anímicos. Mas, para chegar a esses valores precisamos trabalhar os valores temporais, rever conceitos e crenças, quebrar o que foi estruturado durante muitos anos e até mesmo séculos.

Uma pequena circunstância de vida revela muito sobre tais representações mentais. As situações do dia-a-dia são os professores, os guias para essa autodescoberta. O que precisamos é estar no aqui e agora, num estado natural de atenção sobre nós mesmos, para perceber resistências, incômodos, vozes internas, julgamentos, críticas, etc.

A autopsicanálise é indispensável para uma adequada mudança nas representações mentais. Se não questionarmos o que pensamos, como e porque pensamos, nunca vamos nos transformar, nos aperfeiçoar, evoluir.

Prestar atenção a nós mesmos, saber como somos, o que pensamos, o que sentimos é indispensável no processo de evolução humana. Perceber como as impressões que recebemos a cada instante nos afetam, na psique e no corpo é condição fundamental para uma real transformação interior. Além disso, perceber como nos influenciamos mutuamente nesse processo, uma vez que nossas psiques não estão separadas, mas unidas pelo inconsciente.

Observar a nós mesmos é indispensável para descobrir como somos. Prestar atenção a nós mesmos, aqui e agora, a cada instante da nossa vida cotidiana, nos fará descobrir como somos de verdade. Chegará um momento em que começaremos a nos dar conta de padrões repetitivos – as representações mentais. Perceberemos que elas são muitas e de diversos graus, em densidade e profundidade. É neste ponto que começamos a nos relacionar com nosso próprio inconsciente. É aqui que a possibilidade de uma real transformação se dará.

A vida nos chama para mudanças, faz parte dos ciclos da existência. Muito dos sofrimentos pelos quais passamos são consequência da rigidez mental e emocional que se instala em nós pela ausência desse trabalho interior.

O processo da terapia é um caminho maravilhoso para o autoconhecimento. A meditação é a forma mais elevada de autocompreensão, mas se não conseguimos sozinhos, podemos apelar para a ajuda de um terapeuta.

Modificar representações mentais deixa em nós uma sensação muito boa de energia que circula, de vida em movimento. É uma leveza indescritível. Mas é preciso querer passar pelo processo da crisálida para alcançar esse patamar superior.

 

 

 

sábado, 28 de setembro de 2013

O Corpo de Dor (10), por Eckhart Tolle


O CORPO DE DOR (Anexo 10)

CORPOS DE DOR DE PAÍSES E RAÇAS

Determinados países que cometeram ou sofreram muitos atos de violência coletiva possuem um corpo de dor coletivo mais pesado do que outros. É por isso que as nações mais antigas tendem a ter corpos de dor mais fortes. Também é por esse motivo que os países mais jovens, como o Canadá e a Austrália – bem como aqueles que permanecem mais protegidos da loucura circundante, como a Suiça -, costumam apresentar um corpo de dor coletivo mais leve. É claro que nesses lugares as pessoas ainda precisam lidar com seu corpo de dor individual. Quem é sensível o bastante consegue sentir um peso opressivo no campo energético de determinados países no instante em que desce do avião. Em outras nações, é possível detectar um campo energético de violência latente sob a superfície da vida cotidiana.

Nos países em que o corpo de dor é pesado, porém não mais agudo, a tendência das pessoas tem sido a de tentar se dissociar da dor emocional coletiva: na Alemanha e no Japão por meio do trabalho, em outros lugares por meio da tolerância generalizada ao consumo de álcool (que também pode ter o efeito contrário de estimular o corpo de dor, sobretudo quando ingerido em excesso). O corpo de dor pesado da China é até certo ponto abrandado pela prática amplamente disseminada do Tai Chi Chuan. Todos os dias, nas ruas e nos parques da cidade, milhões de pessoas realizam essa meditação em movimento que acalma a mente. Isso faz uma diferença considerável no campo energético coletivo e avança um pouco no sentido de diminuir o corpo de dor pela redução do pensamento e o estabelecimento do estado de presença.

As práticas espirituais que envolvem o corpo físico, como o Tai Chi, o Qigong e a Yoga, também estão sendo cada vez mais adotadas no mundo ocidental. Essas técnicas não criam uma separação entre o corpo e o espírito e ajudam a enfraquecer o corpo de dor. Elas desempenham um papel importante no despertar mundial.

O corpo de dor racial coletivo é muito forte no caso do povo judeu, que sofreu perseguições ao longo de muitos séculos. Não surpreende que ele também seja acentuada nos povos indígenas americanos, que foram dizimados e cuja cultura foi quase toda destruída pelos colonizadores europeus. No que diz respeito aos afro-americanos, o corpo de dor coletivo é igualmente denso. Seus ancestrais foram arrancados com violência de sua terra natal, forçados à submissão e vendidos como escravos. O fundamento da prosperidade econômica dos Estados unidos dependeu do trabalho de 4 a 5 milhões de escravos negros. Na verdade, o sofrimento não ficou limitado aos indígenas e afro-americanos – ele se tornou parte do corpo de dor coletivo do país. Ocorre que tanto a vítima quanto o agressor sempre sofrem as conseqüências de qualquer ato de violência, opressão ou brutalidade. Porque o que fazemos aos outros fazemos a nós mesmos.

Na realidade, não importa que proporção do nosso corpo de dor pertence à nossa nação ou raça, e que proporção é pessoal. Seja como for, só conseguimos superá-lo assumindo a responsabilidade pelo nosso estado interior no momento. Mesmo que culpar pareça algo mais do que justificado (desde que culpemos os outros, é claro), continuamos a alimentar o corpo de dor com nossos pensamentos e permanecemos presos ao ego. Existe apenas um praticante do mal no planeta: a inconsciência humana. Compreender isso é o caminho para o perdão. Quando perdoamos, nossa identidade de vítima se dissipa e nossa verdadeira força se manifesta – a força da presença. Portanto, em vez de culpar a escuridão, acenda a luz.

(Eckhart Tolle – Um Novo Mundo: O Despertar de Uma Nova Consciência)

O Corpo de Dor (9), por Eckhart Tolle


O CORPO DE DOR (Anexo 9)

O CORPO DE DOR FEMININO COLETIVO

A dimensão coletiva do corpo de dor apresenta componentes diferentes. Tribos, nações, raças, todos têm seu corpo de dor coletivo, e alguns são mais pesados do que os outros. A maioria dos integrantes de cada um desses grupos participa dele em maior ou menor grau.

Quase toda mulher tem sua parcela no corpo de dor feminino coletivo, que tende a se tornar ativado especialmente no período que precede a menstruação. Nessa fase, muitas mulheres são dominadas por uma intensa emoção negativa.

A supressão do princípio feminino, sobretudo ao longo dos últimos dois mil anos, permitiu que o ego ganhasse absoluta supremacia na psique humana coletiva. Embora as mulheres tenham ego, é claro, ele pode enraizar-se e prosperar com mais facilidade na forma masculina do que na feminina. Isso acontece porque as mulheres se identificam menos com a mente do que os homens. Elas estão mais em contato com o corpo interior e a inteligência do organismo, que dão origem às faculdades intuitivas. A forma feminina não se encontra tão rigidamente encapsulada quanto a masculina, tem maior abertura e sensibilidade em relação às outras formas de vida e está mais sintonizada com o mundo natural.

Se o equilíbrio entre as energias masculina e feminina não tivesse acabado no nosso planeta, o crescimento do ego teria sido limitado de modo significativo. Não teríamos declarado guerra à natureza e não seríamos tão completamente alienados do nosso Ser.

Ninguém tem o número exato porque não foram mantidos registros, mas acredita-se que ao longo de 300 anos entre 3 e 5 milhões de mulheres foram torturadas e mortas pela “Santa Inquisição”, uma instituição fundada pela Igreja Católica Romana para reprimir a heresia. Esse acontecimento  se equipara ao Holocausto como um dos capítulos  mais sombrios da história da humanidade. Bastava uma mulher mostrar amor pelos animais, caminhar sozinha nos campos ou nas florestas ou colher plantas medicinais para ser considerada bruxa, torturada e condenada a morrer na fogueira. O sagrado feminino foi declarado demoníaco e toda uma dimensão desapareceu significativamente da experiências humana. Outras culturas e religiões, como o judaísmo, o islamismo e até mesmo o budismo, também reprimiram a dimensão feminina, embora de uma maneira menos violenta. O papel das mulheres foi reduzido a cuidar dos filhos e da propriedade masculina. Os homens que negavam o feminino até dentro de si mesmos, agora comandavam o mundo, um mundo que estava em total desequilíbrio. O resto é história, ou melhor, o histórico de um caso de insanidade.

Quem foi responsável por esse medo do feminino que só pode ser descrito como uma paranóia coletiva aguda? Poderíamos dizer: evidentemente, os homens foram os responsáveis. Mas então porque em muitas civilizações antigas pré-cristãs, como a suméria, a egípcia e a celta, as mulheres eram respeitadas e o princípio feminino não era temido, e si reverenciado? O que foi que de repente levou os homens a se sentir ameaçados pelo feminino? O ego que se desenvolvia neles. Ele sabia que só conseguiria obter o pleno controle do planeta por meio da forma masculina e, para fazer isso, tinha que tornar o feminino menos poderoso.

Além disso, o ego também dominou a maioria das mulheres, embora jamais fosse capaz de se enraizar tão profundamente nelas quanto fez com os homens.

Hoje em dia, a supressão do feminino está interiorizada, até mesmo pela maior parte das mulheres. O sagrado feminino, por ser reprimido, é sentido por elas como uma dor emocional. Na verdade, ele se tornou parte do seu corpo de dor juntamente com o sofrimento que elas acumularam ao longo de milênios por meio do parto, do estupro, da escravidão, da tortura e da morte violenta.

No entanto, agora as coisas estão mudando num ritmo muito veloz. Como muitas pessoas estão se tornando mais conscientes, o ego vem perdendo influência sobre a mente humana. Uma vez que ele nunca se enraizou profundamente nas mulheres, seu domínio sobre elas está se reduzindo mais rápido do que sobre os homens.

Eckhart Tolle – Um Novo Mundo: O Despertar de Uma Nova Consciência)

O Corpo de Dor(8), por Eckhart Tolle


O CORPO DE DOR (Anexo 8)

CORPOS DE DOR DENSOS

Algumas pessoas carregam corpos de dor tão densos que nunca se encontram completamente adormecidos. Elas podem estar sorrindo e mantendo uma conversa educada, mas não é preciso ser paranormal para sentir o caldeirão fervente de emoções infelizes que elas mantêm em segundo plano, esperando pelo próximo acontecimento para reagir, pela próxima pessoa para culpar ou confrontar, pela próxima coisa que as deixará tristes. Seu corpo de dor nunca se satisfaz, está sempre faminto. Ele aumenta a necessidade de inimigos que é cultivada pelo ego.

Com sua atitude reativa, elas lidam com questões quase insignificantes de modo explosivo, numa tentativa de atrair outras pessoas para seu próprio conflito fazendo-as reagir. Algumas delas se envolvem em batalhas longas e sem sentido ou em casos judiciais com organizações ou indivíduos. Outras são consumidas por um rancor obsessivo em relação ao ex-cônjuge ou parceiro (a). Inconscientes da dor que carregam dentro de si, elas a projetam, com sua reação, nos acontecimentos e nas situações. Dada sua completa falta de autoconsciência, essas pessoas não conseguem perceber a diferença entre um fato e sua reação a ele. Para elas, a infelicidade e até mesmo a própria dor estão no acontecimento ou na situação. Como não estão conscientes do seu estado interior, nem sequer sabem que estão profundamente infelizes, que estão sofrendo.

Às vezes, pessoas com corpos de dor desse tipo se tornam ativistas que lutam por uma causa. O lema que defendem pode ter de fato seu valor – e elas a princípio podem até ser bem-sucedidas na execução das coisas. No entanto, a energia negativa que flui do que elas dizem e fazem, bem como sua inconsciente necessidade de criar inimigos e conflitos, tende a produzir uma oposição crescente à sua causa. Essas pessoas também costumam fazer desafetos dentro da própria organização porque, não importa onde estejam, descobrem motivos de se sentir mal. Assim, seu corpo de dor continua a encontrar exatamente o que está procurando.

O ENTRETENIMENTO, A MÍDIA E O CORPO DE DOR

Se você não tivesse familiaridade com nossa civilização contemporânea, caso tivesse acabado de chegar de outra época ou de outro planeta, uma das coisas que mais o impressionariam seria constatar que milhões de pessoas adoram ver seres humanos matar e infringir dor nos outros e chamam isso de “entretenimento”. E que pagam para ter essa diversão.

Por que os filmes violentos atraem um público tão grande? Existe toda uma indústria envolvida nessa questão e, uma boa parte dela alimenta o vício humano da infelicidade. Obviamente, as pessoas assistem a essas produções porque querem se sentir mal. O que há nos indivíduos que adoram se sentir mal e dizer que isso é bom? O corpo de dor, é claro. Há uma participação considerável da indústria do entretenimento nesse processo. Portanto, além da atitude reativa, do pensamento negativo e do conflito pessoal, o corpo de dor também usa a tela do cinema e da televisão para se renovar por meio deles. Corpos de dor escrevem e produzem filmes e corpos de dor pagam para vê-los.

Será sempre “errado” mostrar violência e vê-la na televisão e no cinema? Toda essa violência alimenta o corpo de dor? No atual estágio evolucionário da humanidade, ela não só permeia tudo como se encontra em ascensão enquanto a antiga consciência egóica, ampliada pelo corpo de dor coletivo, se intensifica antes da sua inevitável extinção. Se os filmes apresentam a violência no seu contexto mais amplo, se exibem sua origem e suas conseqüências, se revelam o que ela causa às vítimas assim como aos agressores, se mostram a inconsciência coletiva que está por trás dela e como é passada adiante de geração para geração (a raiva e o ódio que vivem nos seres humanos na forma do corpo de dor), então eles desempenham uma função vital no despertar da humanidade. Essas produções podem funcionar como um espelho em que nossa espécie vê sua própria insanidade. Aquilo que em nós reconhece a loucura como loucura (até mesmo se é nossa própria loucura) é sanidade, é a consciência emergente, é o fim da insanidade.

Esses filmes de fato existem e não nutrem o corpo de dor. Alguns dos melhores filmes contra a guerra são os que mostram a realidade, e não uma versão glamorosa dos conflitos. O corpo de dor só consegue se alimentar daquelas produções em que a violência é retratada como um comportamento humano normal ou até  mesmo desejável e daquelas que a glorificam com o único propósito de gerar emoção negativa no espectador e, assim, se tornar um “remédio” para o corpo de dor viciado em sofrimento.

Basicamente, os jornais populares não vendem notícias, mas emoções negativas – alimentos para o corpo de dor. “Atrocidade” ou “Carnificina”, destaca o título em letras garrafais. Essas publicações se superam nesse terreno. Sabem que as emoções negativas vendem muito mais exemplares do que as notícias.

Existe uma tendência nos veículos de informação em geral, incluindo a televisão, de exacerbar os fatos negativos. Quanto mais as coisas pioram, mais exaltados se mostram os apresentadores – e a agitação negativa costuma ser produzida pela própria mídia. Os copors de dor simplesmente a adoram.

(Eckhart Tolle – Um Novo Mundo: O Despertar de Uma Nova Consciência)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Corpo de Dor (7), por Eckhart Tolle


O CORPO DE DOR (anexo 7)

COMO O CORPO DE DOR DE ALIMENTA DO CONFLITO

Se houver outras pessoas por perto, em geral nosso parceiro ou nossa parceira ou um parente próximo, o corpo de dor tentará provocá-los – levá-los ao limite, como se diz – para que possa se nutrir do conflito que resultará disso. Os corpos de dor adoram relacionamentos íntimos e famílias porque é deles que retiram a maior parte de seu alimento. É difícil resistirmos ao corpo de dor de alguém que esteja determinado a suscitar uma relação da nossa parte. Instintivamente, ele conhece nossos pontos mais fracos, mais vulneráveis. Se não for bem sucedido da primeira vez, tentará de novo seguidas vezes. É emoção pura procurando mais emoção. O corpo de dor da outra pessoa quer despertar o nosso para que os dois corpos de dor se energizem mutuamente.

Muitos relacionamentos são marcados por episódios violentos e destrutivos envolvendo o corpo de dor. Esses enfrentamentos costumam ocorrer em intervalos regulares. Para uma criança pequena, é uma dor quase insuportável ter que testemunhar a agressividade emocional dos corpos de dor dos pais, embora essa seja a sina de milhões de crianças em todo o mundo, o pesadelo de sua existência cotidiana. Essa é também uma das principais maneiras de se transmitir o corpo de dor humano de uma geração à outra. Depois de cada incidente desse tipo, os parceiros  se reconciliam e se estabelece uma fase de paz relativa que terá a duração que o ego permitir.

O consumo excessivo de álcool costuma fortalecer o corpo de dor, sobretudo no caso de homens, mas isso também ocorre com algumas mulheres. Quando uma pessoa se embriaga, ela passa por uma completa mudança de personalidade enquanto o corpo de dor assume o controle. Em geral, um indivíduo profundamente inconsciente cujo corpo de dor está habituado a se realimentar por meio da violência física a direciona para o cônjuge ou para os filhos. Depois que o efeito do álcool passa, ele se arrepende de verdade e às vezes até diz que nunca mais repetirá a cena e acredita nisso. Porém, a pessoa que está falando e fazendo promessas não é a entidade que cometeu a violência. Assim, podemos ter certeza de que aquilo acontecerá de novo por vezes seguidas, a não ser que essa pessoa se torne presente, reconheça o corpo de dor em si mesma e abandone sua identificação com ele. Em alguns casos, o aconselhamento consegue ajudá-la a fazer isso.

A maioria dos corpos de dor quer tanto infligir quanto sentir dor, contudo alguns deles são predominantemente agressores ou vítimas. Em ambos os casos, eles se alimentam da violência, tanto emocional quanto física. Algumas pessoas que pensam estar “apaixonadas” estão na verdade se sentindo atraídas uma pela outra porque seus respectivos corpos de dor se complementam. Às vezes, os papéis de agressor e de vítima se definem já no seu primeiro contato. Embora muita gente acredite que certos casamentos foram feitos no céu, na realidade eles se realizaram no inferno.

Se você já conviveu com um gato, deve ter percebido que, até mesmo quando esse animal aparenta estar dormindo, ele sabe o que está se passando ao redor, pois, ao menor ruído inesperado, suas orelhas se direcionam para a fonte do barulho e seus olhos podem até se entreabrir ligeiramente. Com os corpos de dor latentes acontece a mesma coisa. Em algum nível, eles ainda estão despertos, prontos para entrar em ação quando um estímulo adequado se apresenta.

Nos relacionamentos íntimos, os corpos de dor costumam ser espertos o bastante para permanecer discretos até que as duas pessoas começam a viver juntas e, de preferência, assinem um contrato comprometendo-se a ficar unidas pelo resto da vida. Nós não nos casamos apenas com uma mulher ou com um homem, também nos casamos com o corpo de dor dessa pessoa. Pode ser um verdadeiro choque quando – talvez não muito tempo depois de começarmos a viver sob o mesmo teto ou após a lua de mel – vemos que nosso parceiro ou nossa parceira está exibindo uma personalidade totalmente diferente. Sua voz se torna mais áspera ou aguda quando nos acusa, nos culpa ou grita conosco, em geral por uma questão de menor importância. Há casos também em que essa pessoa passa a ficar retraída.

- O que há de errado? – perguntamos.

- Não há nada de errado – ela responde.

Mas a energia intensamente hostil que ela transmite está dizendo:

- Está tudo errado.

Quando olhamos para ela, vemos que já não há luz nos seus olhos – é como se um pesado véu tivesse descido, e o ser que conhecemos e amamos e que antes era capaz de brilhar sobrepondo-se ao ego agora está inteiramente obscurecido. Parece que estamos diante de um verdadeiro estranho cujos olhos mostram apenas rancor, hostilidade, amargura ou raiva. Quando ele nos dirige suas palavras, não é nosso cônjuge que está falando, mas o corpo de dor se expressando por meio dele. Qualquer coisa que esteja dizendo é a versão da realidade do corpo de dor, algo distorcido pelo medo, pela hostilidade, pela ira e pelo desejo de infligir e receber mais sofrimento.

A essa altura, podemos nos perguntar se essa é a verdadeira face daquela pessoa – a que nunca tínhamos visto antes – e se cometemos um grande erro quando a escolhemos como companheira. Na realidade, essa não é a sua face genuína, apenas o corpo de dor que assumiu temporariamente o controle. Seria difícil encontrar um parceiro ou uma parceira que não carregasse um corpo de dor, no entanto seria sensato escolher alguém que não tivesse um corpo de dor tão denso.

(Eckhart Tolle – Um Novo Mundo: O Despertar de Uma Nova Consciência)